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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Carta escrita em 2070






  "Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é

  de alguém com 85.

  Tenho sérios problemas renais porque bebo  pouca água. Creio que me resta pouco tempo.

 
  Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade.

  Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente.

  Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu

  podia desfrutar de um banho de chuveiro com cerca de uma hora.

  Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele.

  Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira.

  Agora devemos raspar a cabeça para a manter limpa sem água.

  Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira.

  Hoje os meninos não acreditam que a água se utilizava dessa forma.

  Recordo que havia muitos anúncios que diziam CUIDA DA água, só que ninguém

   ligava; pensávamos que a água jamais se podia terminar.

 

  Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aqüíferos estão

  irreversivelmente contaminados ou esgotados.

 

  Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos

  por dia por pessoa adulta.

  Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta

  grandemente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar os poços

  sépticos (fossas)como no século passado porque as redes de esgotos não se

  usam por falta de água.

  A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela

  desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já

  não têm a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera.

  Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.

  As infecções gastrintestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias

  são as principais causas de morte.

  A industria está paralisada e o desemprego é dramático.

  As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam-te

  com água potável em vez de salário.

  Os assaltos por um bidão de água são comuns nas ruas desertas.

  A comida é 80% sintética. Pela ressiquidade da pele uma jovem de 20 anos

  está como se tivesse 40.

  Os cientistas investigam, mas não há solução possível.

  Não se pode fabricar água,o oxigênio também está degradado por falta de

  arvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações.

  Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como

  conseqüência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações.

  O governo até nos cobra pelo ar que respiramos.137 m3 por dia por

  habitante e adulto.

  A gente que não pode pagar é retirada das "zonas ventiladas", que estão

  dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia

  solar,não são de boa qualidade mas pode-se respirar, a idade média é de 35

  anos.

  Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu respectivo rio que

  é fortemente vigiado pelo exercito,a água tornou-se um tesouro muito

  cobiçado mais do que o ouro ou os diamantes.

  Aqui em troca,não há arvores porque quase nunca chove, e quando chega a

  registrar-se precipitação,é de chuva ácida; as estações do ano tem sido

  severamente transformadas pelas provas atômicas e da industria

  contaminante do século XX.

  Advertia-se que havia que cuidar o meio ambiente e ninguém fez caso.

  Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem descrevo o

  bonito que eram os bosques, lhe falo da chuva, das flores, do agradável

  que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água

  que quisesse, o saudável que era a gente.

  Ela pergunta-me: Papá! Porque se acabou a água?

  Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me

  culpado,porque pertenço à geração que terminou destruindo o meio ambiente

  ou simplesmente não tomamos em conta tantos avisos.

  Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida

  na terra já não será possível dentro de muito pouco porque a destruição do

  meio ambiente chegou a um ponto irreversível.

  Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse

  isto quando ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta terra!"

 

  Documento extraído da revista biográfica "Crônicas de los Tiempos" de

  Abril de 2002.

 

Autor desconhecido

 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Fábrica de Histórinhas

O Cajueiro e o Feiticeiro

Depois que voltou de Lustron, Sinhazinha recebeu um convite mais do que especial.
Ela chegou tarde da noite e um pouco cambaleante por conta das doses de uísque que distribuíam lagartas e borboletas em sua cabeça afastada do mundo exterior.

Sinhazinha


Eu sabia (em segredo) das escorregadelas da mocinha desamparada e tristonha, que fazia de seus goles intermitentes  da tal bebida gótica, um paraíso de anjos com face de porcelana.
Ela veio tropeçando nas touceiras da entrada de seu sítio tipo cidade fantasma, até alcançar a varanda e, finalmente exausta de seu bafo de onça, caiu madura em sua cadeira de vime pendurada no teto.

Sentou-se ali contemplando um punhado arredio de estrelas que faziam questão de cintilar somente pra ela. Feito isto, virou-se para as samambaias afim de re(ver) suas lagartinhas coloridas...

 Pobre Sinhazinha! Nada viu além de pupas grávidas... Sentiu um arrepio ao perceber uns vultos de vento que transitavam arrastando folhas e gravetos. O frio da madrugada arrastou-a para dentro da casa, e os mesmos vultos se ocuparam em fechar a porta porque a bela fera caiu ali, no sofá mais próximo... Apagando de vez!

Do outro lado da ponte outro convite chegava e desta vez a vítima era  Novelo de Lã, que um dia foi borboleta colorida e hoje altiva e ainda (arrogante) sustenta a figura de Mariposa. Achando-se rainha da noite e suas luzes.

Mariposa Negra


Esta Mariposa era diferente das demais - aquelas, vulgares e de asas pretas, opacas e sentimentais.
Esta tinha um poder psíquico e gostava de "salvar" humanos e seus  traumas. De pernas finas caminhava sobre saltos entre 15 a 20cm que a faziam flutuar de quando em vez, justamente pela leveza da poesia que trazia nas asas. Sim, nas asas! Estas eram cobertas por um negro véu rajado de turquesa delineada em penetrantes brilhos degradês.
Saltitou de contentamento ao ler o convite...


Cajueiro



Há 300 metros da casa da Sinhazinha "jazia" frondoso e um tanto convencido (ainda) de sua copa, O Cajueiro, que conseguia abraçar  uni(versos) naquele céu robótico e frio que ficava interligado em suas raízes bem humoradas.

Quando o primeiro raio de sol incidiu sobre o rosto amassado da Sinhazinha, ela abriu seus olhinhos sentindo que dentro de sua cabeça haviam bigornas descontroladas com dores de parto.
Ela precisava desligar aquele som e ao mesmo tempo tinha que controlar os espamos que vinham de seu estomago de avestruz.
Antes de abrir o tal envelope que continha o convite ela foi encher a banheira e lá se enfiou em borbulhas jogando a ressaca no tapete ao lado.
Ao sair das bolhas de arco íris vestiu seu roupão de gatinhos e foi para a cozinha fazer um chá e, finalmente, acompanhada pela neblina quente que emitia o jasmim da xícara ela abriu o envelope... Que dizia:


Feiticeiro

O nobre Feiticeiro e o Cajueiro hermafrodita convidam para seu enlace matrimonial, a realizar-se na terceira lua do mes dos ipês , na Capela da Fazenda "Índio quer Banana"

 onde Cabralzinho (aquele que tem neurônios colados com cola quente) , era capataz.
Agora, detalhe: Ela, a Sinhazinha seria uma das madrinhas, bem como a Mariposa.

Sinhazinha dançou uma valsa com a xícara de chá, enquanto a Mariposa (do outro lado da ponte), espichou-se com asas de batman pousando no lustre, exclamando: Oh céus!

(....) aguardem a festa de casamento e a transformação do Cajueiro.

by Lu C.




sábado, 20 de abril de 2013

A Mansão dos Gatos


ATO  I -  A DESCOBERTA




De longe eu avistava os portões. Era de um azul macilento, exibindo letras góticas ,bordadas no cinza esbranquiçado gasto pelo tempo.

Eu caminhava rápido, sentindo o hálito cruel da noite que engolia as batidas sôfregas do meu coração. O vento penetrava meus ossos, fazendo gemer as articulações quando me dei conta que estava plantado em frente ao casario.

De construção lúgubre, oferecia aos olhos um espantoso cenário do mais nobre terror hollywoodiano. Forcei os portões que abriram sem nenhuma resistência, e um raio laminal   deu-me boas vindas. Meio atordoado pelo estrondo percebi uma escada que dava certamente para a sala principal. Gritei então um ô de casa e fui entrando, e logo ouvi um gélido: BOA NOITE!!!!!! No alto da escada vi uma mulher de corpo longilíneo, cabelos cor do fogo, curtos e meio tosados, trazendo nos braços um raro e assustador espécime de gato persa. Fiquei hipnotizado por alguns segundos, meus olhos rodopiaram e logo a maquiavélica figura se fazia presente na minha frente. Dei um salto para trás, quando ela perguntou: - O que quer?

Sua cabeça -  eu disse, em tom metálico, ainda duvidando disto. Então aqueles olhos bruxuleantes sorriram diante da minha persona, agora patética, convidando-me para o jantar.

 

ATO II – A LAZANHA

 

Quando entrei na cozinha avistei sobre o guarda comidas um felino negro com esmeraldas no olhar que resolveu encarar-me na sua totalidade, quase que impedindo minhas ações. Sentei-me e logo senti o aroma da iguaria que estava sendo retirada do forno.

Fumegando, a travessa foi colocada sobre a mesa, e logo fui avisado que era uma lazanha vegetariana, pois um dos convidados não comia carne. CONVIDADOS?  Como assim?

Com toda sua falsa delicadeza  e  pernas de saracura , a dona da casa, recebeu mais duas pessoas, e todos nos sentamos para degustar o prato.

O jantar não foi tão ruim, mas já trabalhei com melhores. O importante é que estava ali e teria que cumprir minha missão.

 
 

ATO III – PÊLOS  NO SOFÁ

 
Moncye, como era conhecida a dona da casa, falava agora de poesia. Eu ria interiormente, ouvindo suas críticas embasadas em comentários filosóficos de quem lê Neruda em espanhol. E eu, parado, pregado no sofá, sorvia o frio negrume do café requentado.

Quando percebi que minha calça, casaco e todo o resto naquela sala estavam atolados em pêlos, de várias cores e tamanhos, eles dançavam no ar, provocando minha rinite e  paciência.

Os outros dois convidados, um homem de estatura mediana, barba serrada, pele rugosa e rosada e com seqüelas de acne, ria muito, enquanto a mulher ao lado dele, metida num tomara que caia branco, ostentando cabelos negros escorridos e tímidos segurava um angorá branco  embalando como um recém-nascido. Eu olhava tudo com nojo e arrependimento, porém algo me dizia que seria interessante eu continuar ali colhendo dados importantes para minha pesquisa.
 

ATO IV – O REBENTO MALVADO


Logo depois do café com gato, a porta se abriu e com ela uma rajada de vento que colocou para dentro mais um personagem. Entrou meio aturdido com cara de boneco de mola e olhos de bolas de gude mesclados em verde azulado. Usava uma calça jeans surrada e uma camiseta colada ao corpo revelando uma saliência abdominal adquirida provavelmente por litros de coca-cola e alguns big-macs.

Logo a mãe coruja ora felina, nos apresentou sua cria que sorriu realçando a brancura dos dentes, dizendo um olá a todos e logo desaparecendo escada acima.

 

ATO V – PORTENHOS NO QUINTAL


Para completar a cena, a campainha gritou. Eu estava na cozinha tentando investigar pistas e colhendo dados para meu artigo abstrato, porém concreto em meu cérebro refinado, quando ouvi um sotaque galego... cocei a fronte revirando os olhos, pigarreando.

 Logo avistei no hall dois homens e uma mulher de aparência cigana, desses que leem a mão, adivinhadores da vida alheia. Fomos apresentados enquanto os gatos miavam eriçando pêlos e unhas. Com o estômago revirado fui levado para o quintal  abraçado pelo homem de rosto rosado com cicatrizes de acne , levado pela mão por sua amiga tímida.

Não sei o que havia escondido naquele quintal, só sei que todos estávamos ali agora em meio a vasos e plantas, e uma tartaruga imaginária que insistia em se esconder entre as folhagens.


Eu olhava com asco aqueles ciganos de aparência seborréica. Tinham os cabelos compridos e despenteados. A mulher vestia saia longa e solta, florida em sua totalidade, exibia também um corpete branco cheio de laçarotes. Os homens, dominados pelo cigarro, falavam baixo e rápido e em sua linguagem portenha eu nada podia entender. Pareciam maltrapilhos. Usavam chinelos ou sandálias(até hoje não sei bem o que era aquilo), de um tecido rugoso e  de tons acastanhados. Um deles usava uma boina típica do Che Guevara.

A cena final caracterizou-se desta forma: Os três maltrapilhos sentados no chão, a dona da casa na soleira da porta, e eu e os convidados apoiados na mureta que embutia o bujão de gás.

Na cozinha os gatos e a lasanha.


EPÍLOGO


De repente fui convidado a visitar o andar superior. Passei em frente a uma estante onde tranquilamente dormiam dois felinos, um branco e um malhado. Eram desses gatos vira-latas que miam para a lua e gemem de madrugada debaixo das janelas.

Sem demora subi as escadas acompanhada da saracura e da tímida que me  levaram até o computador onde tive que ler alguns poemas anárquicos, escritos devassos que sutilmente à primeira vista revelavam um lirismo tosco.

Enfim,  e já sem tempo, as despedidas!! Saí exatamente como entrei. Assustado e só, nem desconfiando que  alguns anos à frente,  eu iria descobrir tudo sobre a colecionadora de gatos.

 by Lu C.

*direitos reservados*


 

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Bolha assassina

Quando me casei eu não era lá muito chegada em cozinhar, mesmo porque estudava e trabalhava na própria faculdade e chegava um pouco tarde já meio esbagaçada de cansaço.

Minha mãe vinha me "salvar", deixando a casa arrumadinha e deixando a janta a meio caminho andado. Ela cozinhava feijão, temperava os bifes e deixava a salada lavada na geladeira e assim quando eu chegasse faltaria só eu tirar as cartas da manga e começar a jogar, porque pelo menos o arroz eu sabia fazer.



Bom, até aí tudo bem, né gente. Mas teve uma noite em que fui temperar o feijão e fiz tudo como ela tinha me ensinado. Só que esse feijão fervia e fervia e nada do caldo engrossar... Daí eu fiquei com a pulga atrás da orelha e pensei com meus botões: " Ué, porque o caldo não fica suculenteo como os que minha mãe e vó fazem?" Indignada com aquele aguaceiro dentro da panela eu tive uma idéia: BRILHANTE E EXPLOSIVA kkkkkkk... Advinhem o qu eu fiz?

Peguei um copo de água com 2 colheres de farinha de trigo, misturei e despejei dentro do feijão.
CREDO EM CRUZ!!!!!! O treco começou a pular e levantar bolhas e eu mexendo e tudo espirrando em mim, no fogão nas paredes e o bagulho crescendo e pulando fora da panela. Imaginem minha cara de horror?! kkkkkkk

FEIJÃO ASSASSINO

Desliguei o fogo e o treco acalmou, mas advinhem :eu tinha feito um cimento armado com sabor de feijão. FRUSTRAÇÃO TOTAL, mas depois caí na risada e respirei aliviada falando em alto e bom tom:

"AINDA BEM QUE MINHA SOGRA NÃO VIRIA PARA O JANTAR"!

"by Lu Cavichioli em tempos de aprendiz de feiticeiro"

terça-feira, 16 de abril de 2013

Conversando com Clarice - a Lispector





Recadinho de Clarice Lispector - para quem acha que existem coisas IMPOSSÍVEIS

"A maioria das coisas impossíveis são impossíveis apenas porque não foram tentadas. Quanta coisa você não faz por timidez ou medo...

Você já experimentou pintar paredes? Pois, acredite ou não, não é necessário tirar "curso" ( só um curso de confiança em si mesma ajudaria, pois confiança é o que lhe falta).

A tinta, você compra. O pincel, também. A parede você já tem. E duas mãos também. Por incrível que pareça, você é dona dos instrumentos necessários. O que falta mais? Um pouco de ousadia e vontade de se divertir. (E de economizar)

*Palavras de Clarice em seu livro "Só Para Mulheres", onde foi feita uma coletânea das matérias que ela expunha quando era radialista.
A edição está linda e vale a pena ter em sua biblioteca particular.




*nota da Lu - Viver reclamando da vida é fazer desabar a casa, tijolo por tijolo.
Tornar o IMPOSSÍVEL em POSSÍVEL nem sempre é tarefa árdua.

Lu C.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Razões do Coração Cena V e Epílogo


Depois de refazer suas energias Rose dividia um café com o pai ali no refeitório. No rosto ainda trazia resquícios da visão que tivera no jardim.
 
 

Pai e filha continuavam em silêncio respeitando as fronteiras do coração até que Suzel adentrou ao salão acompanhada por uma meninota de passos delicados e face cabisbaixa, aproximando-se rapidamente.

Sem conter a ansiedade seu Carmo foi o primeiro a olhar e logo abriu um sorriso largo. Em seguida, girando sobre o calcanhar, Rose deparou-se com a garotinha.

_Muito bem senhores, esta é Angélica, nossa pequena artista.
 

Rose levantou o rosto lentamente e os olhos cor de mel de Angélica encontraram os seus. Num breve  e doce sorriso Rose estendeu sua mão em direção a ela que prontamente entregou a sua. As peles se tocaram e Rose sentiu um iceberg no estômago.

_Oi Angélica, como vai você?

_To bem, é a senhora que vai me levar daqui?

Seu Carmo estava com os olhos marejados e um leve tremor de mãos e, pelo que sabemos dele, a emoção já o tinha tomado por completo.

-Eu acho que sim, não é mesmo Suzel?

_Perfeito Sra. Rose!

_Quantos anos tem Angélica?

-Tenho quatro, mostrando a idade com os dedinhos ...

Tudo foi muito rápido nesse encontro e enquanto seu Carmo saía com Angélica pela mão, Rose acertava os últimos detalhes com Suzel :

... - Sim, está tudo certo e o retorno da menina fica para o dia primeiro de janeiro.  Aqui nesta maleta estão as roupas e pertences dela.

Feliz Natal e um ano novo cheio de paz, e que a senhora continue conservando esta generosidade que demonstrou.

Obrigada Suzel por sua atenção, nos vemos no ano novo. Feliz Natal!

 

Rose saiu rapidamente indo para seu carro e enquanto seguia percebeu que seu pai e Angélica  já pareciam íntimos, justamente pelas risadas trocadas e os gestos que sugestionavam alguma brincadeira.
Angélica era uma menina alegre, mas tinha alguns momentos de melancolia que logo foi notado ali mesmo no caminho para casa.
Seu Carmo ia atrás com ela e logo percebeu sua mudez, então puxou conversa:
_Angélica, a tia Suzel disse que você é uma artista, é verdade?

A menina levantou os olhinhos , agora tímidos, respondendo um sim mudo.

-E o que você faz para ser uma artista?
-Eu gosto de pintar e fazer colagens. Gosto de consertar coisinhas quebradas. A tia sempre deixa nosso material na mesinha e a gente vai pegando o que quer. Eu gosto da cola e das tintas brilhantes.
-É mesmo. E onde faz isso?
- Nas aulas de ocupacional... Ai... Esqueci o nome Sorrindo encabulada.

-Seria Terapia Ocupacional - disse prontamente Rose.

-É tia, isso mesmo! E eu sei cantar também e adoro ouvir historinhas.
Via-se que Angélica tinha deixado a melancolia de lado e sua felicidade pintou de paz sua face. E ela desandou a falar.
-Tia, você está me levando pra sua casa?
-Sim, meu bem. Você vai passar o natal com a gente.
-E vou ganhar presente e morar lá com vocês né?
Dentro da cabeça ingênua daquela criança ela fantasiava e a vida dela seria de agora em diante esta família. Embora soubesse por Suzel que iria passar somente o Natal e a festa de reveillon.
As crianças têm normalmente essa capacidade de sonhar inocências e acreditar nelas. Construindo assim seu mundo particular com surpresas e momentos felizes.
Rose foi contundente nessa hora, apesar de seu coração contrariá-la.
_Não Angélica! Você não pode morar conosco, porque sua casa é lá no orfanato com aquele montão de amiguinhos que você tem. A tia Suzel não te falou sobre isso?
-Falou sim, mas é que eu - a melancolia voltava, e seu corpo começou a falar enquanto ela ia aninhando sua cabeça no peito de seu Carmo.
Ele, percebendo a situação a abraçou dizendo:

- Ei pequena artista, que tal um pirulito? - Em seguida tirou do bolso um daqueles pirulitos grandes e coloridos que grudam nos dentes pintando aquarelas nas roupas proporcionando arruaça de doces alegrias.



-Oba, que bonito esse pirulito. É todinho pra mim?

-Sim querida, todo seu.
Já tinha passado do meio dia quando chegaram em casa. O aroma da torta de batata recheada com carne moída invadia a garagem, misturando-se com o pudim de caramelo que estava saindo do forno.
Alice ouviu o ronco da caminhoneta do avô e saiu em disparada para encontrá-los na escadaria que dava acesso à entrada de serviço. Estava tão esbaforida que nem ouvia o chamado do pai.



Quando ela chegou ao topo da escada viu a mãe carregando duas malas e uma boneca de pano chacoalhando os cabelos de lã vermelha. Logo atrás viu seu avô de mãos dadas com Angélica. O sorriso estampado encolheu e ela proferiu:

Ah, você trouxe a menina que mora sozinha pra morar aqui?
_Quieta Alice! Já te explicamos, e vê se muda essa cara, essa é Angélica. Ela vai passar o natal com a gente e vocês serão boas amigas, ok?
Angélica olhou diretamente nos olhos de Alice e tomando coragem disse:
-Oi, você viu meu pirulito? Foi o vovô que me deu.
-O seu avô veio também - cadê ele?
Todos riram desse pequeno diálogo - porém as meninas ainda estavam travando uma batalha velada.

_ Não sua boba, esse vovô aqui - pegando na mão do seu Carmo.

Alice fez careta e completou:

Bobinha é você, e esse avô é MEU!

CHEGA! Interpelou Marcos. Vamos pra sala de visitas terminar de enfeitar a árvore de natal o que acham?

Rose e seu Carmo respiraram fundo meio aliviados porque no ar alguns mísseis ainda saracoteavam.


Epílogo
 
 
As meninas ficaram tão amigas que uma não desgrudava da outra e dividam tudo como almas gêmeas.
 
A noite de natal havia chegado e a casa estava toda iluminada e o pinheiro de Rose fazia as honras.


 
A mesa central vestia roupa de festa e as iguarias de Tiana anunciavam que a ceia seria inesquecível.
Rose e Marcos estavam terminando de se arrumar quando o celular dela toca. Marcos atende. Mudo do outro lado. Ele desliga.
Toca novamente. Rose atende.
-Alô, alô... - FELIZ NATAL - a voz pronunciava.
-Quem é?
-Sei que você sabe, mas não quer mais se lembrar. Mas saiba que vou te amar eternamente... Ligação encerrada.
Rose caiu sem forças na poltrona.
-O que houve amor?
-... Ai... Marcos me traga um copo com água, por favor.
Depois que Marcos saiu, Rose caiu num sono profundo e sem propósito e então  deu-se o seguinte enredo em sonho:
"O ambiente era claro, porém nebuloso. Havia vozes misturadas e Rose viu-se deitada em uma maca. Sentia náuseas e chorava... Alguém segurava sua mão enquanto um dos vultos ao seu redor dizia:
-FIZEMOS TODO O POSSÍVEL... ISSO É UMA FATALIDADE! VAMOS SEDAR A MÃE, RÁPIDO!
Quando se recuperou lhe contaram que a criança havia nascido morta e sufocada pelo cordão umbilical. A tão esperada e desejada Ana Teresa voltava para o jardim das crianças/anjos.
Após seu completo restabelecimento físico e psicológico ela ficou sabendo que nunca mais poderia ter filhos porque seu útero não contraiu após o parto e precisaram retirá-lo."
Nesse momento ela abriu os olhos e como num relâmpago tudo veio à tona novamente... E ela chorou todas as lágrimas que uma mulher armazena durante a vida.
Esse transe durou segundos e parecia uma vida inteira. Marcos já estava a seu lado com o copo d’água.
-Querida o que houve agora?
Foi ela Marcos... Foi ela, tenho certeza...  Nossa Ana Tereza!
Ela veio até mim e agora acho que encontrei a paz de que precisava.
Marcos a abraçou sem proferir palavra alguma e ali dividiram a dor.
Quando desceram, Rose viu Alice e Angélica abraçadas perto do pinheiro que parecia brilhar mais naquela noite, e sentiu um amor  incondicional pela órfã como se fosse sua cria.
Ali estava seu presente de natal - sob a árvore- junto de Alice.
No dia primeiro de ano ao entardecer Angélica já era parte integrante da família.
FIM

 
*Tudo pode acontecer quando nosso coração se torna dilatado pelo AMOR!
 
By Lu Cavichioli
Outono de 2013
São Paulo