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terça-feira, 17 de março de 2015
Vãos e entranhas
Não sei explicar, mas as casas têm grande influência sobre mim. Tanto que em meus sonhos elas aparecem com muita frequência.
São casas de todos os tipos, mas eu nunca vejo a fachada, sempre estou em seu interior e lá me aninho em seu útero que me recebe de maneiras sempre inusitadas, por vezes surreais e até grotescas.
Eu sou uma pessoa muito apegada às coisas e pessoas, e as casas, todas por onde passei, morei ou cresci, deixaram marcas profundas em meus vãos.
Depois que perdi meu pai, há 6 meses, a casa perdeu a luz, perdeu o cheiro da gentileza, do sorriso franco e acolhedor. Perdeu a cor, o som e a voz... Cada vez que lá eu volto pra cuidar da mamãe, um caco de pele e carne se desloca de mim, e lá vou eu colar e colar e colar e a ferida dói cada vez mais.
Sou grata a Deus porque conseguimos vender a casa e mamãe virá perto de mim agora... A casa onde saí de noiva, a casa onde corri atrás dos meus primos, onde ri muito com meus tios... A casa onde meus avós vinham de domingo e almoçavam conosco... a casa onde namorei muito com meu marido... A casa que abrigou reveillons e muita alegria e também onde chorei meus mortos.
Acabou. Sim, terminou, viramos a página e ponto parágrafo na outra linha.
Papai ficou na memória, fixou morada nos meandros de meu cérebro de menina que faz lapidar nossa história em meus neurônios de mulher,
A casa em breve terá novos passos, novos rostos a olhar para suas paredes. Sons de novidade se erguerão desde o chão... Talvez marretas e toda sorte de ferramentas dolorosas passará como um trator sobre uma história cujo epílogo eu não queria escrever.
Lu C.
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