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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Na Fábrica de Histórinhas...

... As três Marias!
Na pauta de hoje:


MARIA IDEAL




As Marias eram apenas três menininhas comportadas que estrelavam telas de cinema em sépia, totalmente descoloridas, porém em cada interior conservavam as cores que  adoçaram a boca do sabiá carcará, aquele que pega mas não mata e nem come, apenas adula.

As Mariazinhas viviam sua vidinha costumeira e um tanto tediosa, e no entanto eram cantadoras de cantigas de roda e brincavam de amarelinha quando se encontravam num arrastapé local em algum lugar do planeta.

Um dia me contaram sobre Maria Ideal, mocinha comportada, educada e letrada. Nasceu pronta a moçoila, com perninhas bronzeadas e sorriso Colgate. 

Em suas lembranças dançavam alguns retratos antigos como um balaio onde ela repousava (ainda), seu espírito de criança em tardes alaranjadas colhendo fruta no pé.

Soube que ela viajou léguas, mudou de endereço e virou deusa de rara beleza, estraçalhando corações.
Contudo, ela gostava mesmo era de tecer teias férteis e decorativas que transformava em mandalas mágicas e seus poderes eram parecidos com os da Família Maia, aqueles findadores de mundos.

Maria Ideal conjugava verbos e adagas amalgamando álbuns fotográficos, mesmo porque sua figura lembrava Danae a deusa da fonte que dava de beber aos pobres de espírito.

Contam também que possuía , Maria Ideal, uma voz maviosa, macia e totalmente clean e sem pigarrear uma só vez, declamava sons alusivos de poetas arcaicos, prosaicos e maduros na estatura do ser.
Ela morava num castelo fincado no horizonte, e de lá espiava o mundo.

Aguardem as outras Marias, ou em edição extraordinária mais um tiquinho da vida de Maria Ideal.
 Vem muito mais por aí!

...
by Lu C.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Cajueiro, a Sinhazinha e o Novelo de Lã


*Quem conhece minha literarura sabe que viajo através do fantástico mundo surreal e este causo (desta contadora de histórias), é prova disso.*


(uma parábola sertaneja/florilégio daquelas de arrepiar assombração)

Todas as tardes  a Sinhazinha sentava-se à sombra do Cajueiro e ali ficava cirandando metonímias e desenhando estátuas de papel.
Tinha dias que ficava em sua cadeira de balanço, fincada ali no alpendre olhando lagartas comedoras de samambaias.






A SINHAZINHA





 QUE VIROU PÁSSARO MUSICAL
 



 



De noite o cajueiro se disfarçava em silêncio inquieto enquanto a Sinhazinha se confundia com notas musicais e o novelo de lã virava borboleta.

O Cajueiro pensava que tinha brilho próprio porque todos que passavam pela estrada do rancho paravam ali pra admirá-lo.






O CAJUEIRO
 
O novelo de lã que era borboleta confundia-se  com teias de aranha e a Sinhazinha virava bem-te -vi , pulando em pianos afinandos.


O NOVELO DE LÃ QUE VIROU BORBOLETA
 
 
 
Sinhazinha tinha um filho que era tocador de viola e escrevia cartas de amor para as nuvens. De quando em vez cismava e montava em seu alazão com chicote, cantil e sonhos de poeta golpeando na espora, o seu galope certeiro sem olhar pra trás. Quando isso acontecia, ela ficava na janela de cotovelos apoiados e mãos no queixo acenando saudades, e vendo homens com asas de anjo. Então ela chorava, buscando acolhida no cajueiro que marcava encontros noturnos com a borboleta que era novelo de lã.


FILHO DA SINHAZINHAIlustração: Juraci Dórea.
 
 
Certa noite, lá pelas bandas da cidade, bem longe da casa de Sinhazinha, eu tomava meu velho e bom uísque no único bar local quando ouvi alguém gritar: -“Valha-me Deus”! Então numa fração de segundos eu me virei  olhando para a entrada  dando de cara com uma figura sinistra.

Parado feito abóbora macabra em dia de halloween o homem olhava a todos com certo olhar debochado e cínico. Sem demora tomei um trago que desceu meio torto e fui logo perguntando ao jagunço Cabralzinho quem era a figura.

O CURANDEIRIO
 
 

Cabralzinho era homem queimado de sol e pele craquelada. Usava um chapéu amarelado que encobria sua juba encaracolada e fedida. Da sua boca saia alguns sons fétidos e a falta de alguns dentes lhe conferia um sorriso esquelético. Foi aí que ele me disse: ´-“Esse cabra é o curandeiro que mora em Rio das Pedras... O moço num cunhece?”
JAGUNÇO CABRALZINHO

Balancei a cabeça em tom negativo e pensei comigo: “CURANDEIRO”? ISSO AINDA EXISTE POR ESTAS BANDAS?

De repente a figura bizarra de barba comprida e negra  e rosto sisudo sustentava um capuz com cara de edredon patchwork,  e uma capa amarrada ao pescoço, aproximou-se perguntando por uma tal de Sinhazinha e onde era o rancho dela.
O bar Man desconfiado botou copo e cachaça na bancada sem mesmo o velho pedir e foi logo respondendo inocentemente:
“O rancho de Sinhazinha fica pra mais de algumas léguas depois da Ponte do Chumbinho”(...) Mas pra mor de quê o senhor quer saber?
_Interessa não, filho de um cão! Cala essa latrina antes que eu lhe amaldiçoe e tu vire um sapão daqueles bem verdes e pançudos.


SAPO VERDE E PANÇUDO


Eu saí de fininho e pus-me a correr em direção oposta à que ele tinha perguntado. Depois disso, fiquei  meses sem ter notícias daquele homem que mais parecia personagem de um teatro mambembe.
Fiquei sabendo depois que o homem queria mesmo era conhecer o cajueiro que virou fogueira de São João... Sabe-se lá por quê!?

Ô Coisa esquisita  sô!
Esse causo ainda é contado através dos lampiões de gás do século XXI e de tempos em tempos ainda posso ouvir o som da borboleta voando sobre o cajueiro da Sinhazinha que tecia teias com o novelo de lã enrodilhado na gaiola pendurada na toca do curandeiro.

Dizem que essa historieta virou imagem holográfica e viajou universos.
... Caso estranho esse! Talvez  haja continuação, se eu conseguir desenhar o mapa  astral, escondido sob o novelo de lã que a sinhazinha enterrou ao pé do cajueiro.

By Lu Cavichioli