Depois de refazer suas energias Rose dividia um
café com o pai ali no refeitório. No rosto ainda trazia resquícios da visão que
tivera no jardim.
Pai e filha continuavam em silêncio respeitando
as fronteiras do coração até que Suzel adentrou ao salão acompanhada por uma
meninota de passos delicados e face cabisbaixa, aproximando-se rapidamente.
Sem conter a ansiedade seu Carmo foi o primeiro
a olhar e logo abriu um sorriso largo. Em seguida, girando sobre o calcanhar,
Rose deparou-se com a garotinha.
_Muito bem senhores, esta é Angélica, nossa
pequena artista.
Rose levantou o rosto lentamente e os olhos cor
de mel de Angélica encontraram os seus. Num breve e doce sorriso Rose estendeu sua mão em direção
a ela que prontamente entregou a sua. As peles se tocaram e Rose sentiu um iceberg
no estômago.
_Oi Angélica, como vai você?
_To bem, é a senhora que vai me levar
daqui?
Seu Carmo estava com os olhos marejados e um
leve tremor de mãos e, pelo que sabemos dele, a emoção já o tinha tomado por
completo.
-Eu acho que sim, não é mesmo Suzel?
_Perfeito Sra. Rose!
_Quantos anos tem Angélica?
-Tenho quatro, mostrando a idade com os dedinhos
...
Tudo foi muito rápido nesse encontro e enquanto
seu Carmo saía com Angélica pela mão, Rose acertava os últimos detalhes com
Suzel :
... - Sim, está tudo certo e o retorno da menina
fica para o dia primeiro de janeiro. Aqui nesta maleta estão as roupas e pertences
dela.
Feliz Natal e um ano novo cheio de paz, e que a
senhora continue conservando esta generosidade que demonstrou.
Obrigada Suzel por sua atenção, nos vemos no ano
novo. Feliz Natal!
Rose saiu rapidamente indo para seu carro e
enquanto seguia percebeu que seu pai e Angélica já pareciam íntimos, justamente pelas risadas
trocadas e os gestos que sugestionavam alguma brincadeira.
Angélica era uma menina alegre, mas tinha alguns
momentos de melancolia que logo foi notado ali mesmo no caminho para casa.
Seu Carmo ia atrás com ela e logo percebeu sua
mudez, então puxou conversa:
_Angélica, a tia Suzel disse que você é uma
artista, é verdade?
A menina levantou os olhinhos , agora tímidos,
respondendo um sim mudo.
-E o que você faz para ser uma artista?
-Eu gosto de pintar e fazer colagens. Gosto de
consertar coisinhas quebradas. A tia sempre deixa nosso material na mesinha e a
gente vai pegando o que quer. Eu gosto da cola e das tintas brilhantes.
-É mesmo. E onde faz isso?
- Nas aulas de ocupacional... Ai...
Esqueci o nome Sorrindo encabulada.
-Seria Terapia Ocupacional - disse prontamente
Rose.
-É tia, isso mesmo! E eu sei cantar também e
adoro ouvir historinhas.
Via-se que Angélica tinha deixado a melancolia
de lado e sua felicidade pintou de paz sua face. E ela desandou a falar.
-Tia, você está me levando pra sua casa?
-Sim, meu bem. Você vai passar o natal com a
gente.
-E vou ganhar presente e morar lá com vocês né?
Dentro da cabeça ingênua daquela criança ela
fantasiava e a vida dela seria de agora em diante esta família. Embora soubesse
por Suzel que iria passar somente o Natal e a festa de reveillon.
As crianças têm normalmente essa capacidade de
sonhar inocências e acreditar nelas. Construindo assim seu mundo particular com
surpresas e momentos felizes.
Rose foi contundente nessa hora, apesar de seu
coração contrariá-la.
_Não Angélica! Você não pode morar conosco,
porque sua casa é lá no orfanato com aquele montão de amiguinhos que você tem.
A tia Suzel não te falou sobre isso?
-Falou sim, mas é que eu - a melancolia voltava,
e seu corpo começou a falar enquanto ela ia aninhando sua cabeça no peito de
seu Carmo.
Ele, percebendo a situação a abraçou dizendo:
- Ei pequena artista, que tal um pirulito? - Em
seguida tirou do bolso um daqueles pirulitos grandes e coloridos que grudam nos
dentes pintando aquarelas nas roupas proporcionando arruaça de doces alegrias.
-Oba, que bonito esse pirulito. É todinho pra
mim?
-Sim querida, todo seu.
Já tinha passado do meio dia quando chegaram em
casa. O aroma da torta de batata recheada com carne moída invadia a garagem,
misturando-se com o pudim de caramelo que estava saindo do forno.
Alice ouviu o ronco da caminhoneta do avô e saiu
em disparada para encontrá-los na escadaria que dava acesso à entrada de
serviço. Estava tão esbaforida que nem ouvia o chamado do pai.
Quando ela chegou ao topo da escada viu a mãe
carregando duas malas e uma boneca de pano chacoalhando os cabelos de lã
vermelha. Logo atrás viu seu avô de mãos dadas com Angélica. O sorriso
estampado encolheu e ela proferiu:
Ah, você trouxe a menina que mora sozinha pra
morar aqui?
_Quieta Alice! Já te explicamos, e vê se muda
essa cara, essa é Angélica. Ela vai passar o natal com a gente e vocês serão
boas amigas, ok?
Angélica olhou diretamente nos olhos de Alice e
tomando coragem disse:
-Oi, você viu meu pirulito? Foi o vovô que me
deu.
-O seu avô veio também - cadê ele?
Todos riram desse pequeno diálogo - porém as
meninas ainda estavam travando uma batalha velada.
_ Não sua boba, esse vovô aqui - pegando na mão
do seu Carmo.
Alice fez careta e completou:
Bobinha é você, e esse avô é MEU!
CHEGA! Interpelou Marcos. Vamos pra sala de
visitas terminar de enfeitar a árvore de natal o que acham?
Rose e seu Carmo respiraram fundo meio aliviados
porque no ar alguns mísseis ainda
saracoteavam.
As meninas ficaram tão amigas que uma não
desgrudava da outra e dividam tudo como almas gêmeas.
A mesa central vestia roupa de festa e as
iguarias de Tiana anunciavam que a ceia seria inesquecível.
Rose e Marcos estavam terminando de se arrumar
quando o celular dela toca. Marcos atende. Mudo do outro lado. Ele desliga.
Toca novamente. Rose atende.
-Alô, alô... - FELIZ NATAL - a voz pronunciava.
-Quem é?
-Sei que você sabe, mas não quer mais se lembrar.
Mas saiba que vou te amar eternamente... Ligação encerrada.
Rose caiu sem forças na poltrona.
-O que houve amor?
-... Ai... Marcos me traga um copo com água, por
favor.
Depois que Marcos saiu, Rose caiu num sono
profundo e sem propósito e então deu-se
o seguinte enredo em sonho:
"O ambiente era claro, porém nebuloso. Havia
vozes misturadas e Rose viu-se deitada em uma maca. Sentia náuseas e chorava...
Alguém segurava sua mão enquanto um dos vultos ao seu redor dizia:
-FIZEMOS TODO O POSSÍVEL... ISSO É UMA
FATALIDADE! VAMOS SEDAR A MÃE, RÁPIDO!
Quando se recuperou lhe contaram que a criança
havia nascido morta e sufocada pelo cordão umbilical. A tão esperada e desejada
Ana Teresa voltava para o jardim das crianças/anjos.
Após seu completo restabelecimento físico e
psicológico ela ficou sabendo que nunca mais poderia ter filhos porque seu
útero não contraiu após o parto e precisaram retirá-lo."
Nesse momento ela abriu os olhos e como num
relâmpago tudo veio à tona novamente... E ela chorou todas as lágrimas que uma
mulher armazena durante a vida.
Esse transe durou segundos e parecia uma vida
inteira. Marcos já estava a seu lado com o copo d’água.
-Querida o que houve agora?
Foi ela Marcos... Foi ela, tenho certeza... Nossa Ana Tereza!
Ela veio até mim e agora acho que encontrei a
paz de que precisava.
Marcos a abraçou sem proferir palavra alguma e
ali dividiram a dor.
Quando desceram, Rose viu Alice e Angélica
abraçadas perto do pinheiro que parecia brilhar mais naquela noite, e sentiu um
amor incondicional pela órfã como se fosse sua cria.
Ali estava seu presente de natal - sob a árvore-
junto de Alice.
No dia primeiro de ano ao entardecer Angélica já
era parte integrante da família.
*Tudo pode acontecer quando nosso coração se
torna dilatado pelo AMOR!
By Lu Cavichioli
Outono de 2013
São Paulo


























