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sábado, 20 de abril de 2013

A Mansão dos Gatos


ATO  I -  A DESCOBERTA




De longe eu avistava os portões. Era de um azul macilento, exibindo letras góticas ,bordadas no cinza esbranquiçado gasto pelo tempo.

Eu caminhava rápido, sentindo o hálito cruel da noite que engolia as batidas sôfregas do meu coração. O vento penetrava meus ossos, fazendo gemer as articulações quando me dei conta que estava plantado em frente ao casario.

De construção lúgubre, oferecia aos olhos um espantoso cenário do mais nobre terror hollywoodiano. Forcei os portões que abriram sem nenhuma resistência, e um raio laminal   deu-me boas vindas. Meio atordoado pelo estrondo percebi uma escada que dava certamente para a sala principal. Gritei então um ô de casa e fui entrando, e logo ouvi um gélido: BOA NOITE!!!!!! No alto da escada vi uma mulher de corpo longilíneo, cabelos cor do fogo, curtos e meio tosados, trazendo nos braços um raro e assustador espécime de gato persa. Fiquei hipnotizado por alguns segundos, meus olhos rodopiaram e logo a maquiavélica figura se fazia presente na minha frente. Dei um salto para trás, quando ela perguntou: - O que quer?

Sua cabeça -  eu disse, em tom metálico, ainda duvidando disto. Então aqueles olhos bruxuleantes sorriram diante da minha persona, agora patética, convidando-me para o jantar.

 

ATO II – A LAZANHA

 

Quando entrei na cozinha avistei sobre o guarda comidas um felino negro com esmeraldas no olhar que resolveu encarar-me na sua totalidade, quase que impedindo minhas ações. Sentei-me e logo senti o aroma da iguaria que estava sendo retirada do forno.

Fumegando, a travessa foi colocada sobre a mesa, e logo fui avisado que era uma lazanha vegetariana, pois um dos convidados não comia carne. CONVIDADOS?  Como assim?

Com toda sua falsa delicadeza  e  pernas de saracura , a dona da casa, recebeu mais duas pessoas, e todos nos sentamos para degustar o prato.

O jantar não foi tão ruim, mas já trabalhei com melhores. O importante é que estava ali e teria que cumprir minha missão.

 
 

ATO III – PÊLOS  NO SOFÁ

 
Moncye, como era conhecida a dona da casa, falava agora de poesia. Eu ria interiormente, ouvindo suas críticas embasadas em comentários filosóficos de quem lê Neruda em espanhol. E eu, parado, pregado no sofá, sorvia o frio negrume do café requentado.

Quando percebi que minha calça, casaco e todo o resto naquela sala estavam atolados em pêlos, de várias cores e tamanhos, eles dançavam no ar, provocando minha rinite e  paciência.

Os outros dois convidados, um homem de estatura mediana, barba serrada, pele rugosa e rosada e com seqüelas de acne, ria muito, enquanto a mulher ao lado dele, metida num tomara que caia branco, ostentando cabelos negros escorridos e tímidos segurava um angorá branco  embalando como um recém-nascido. Eu olhava tudo com nojo e arrependimento, porém algo me dizia que seria interessante eu continuar ali colhendo dados importantes para minha pesquisa.
 

ATO IV – O REBENTO MALVADO


Logo depois do café com gato, a porta se abriu e com ela uma rajada de vento que colocou para dentro mais um personagem. Entrou meio aturdido com cara de boneco de mola e olhos de bolas de gude mesclados em verde azulado. Usava uma calça jeans surrada e uma camiseta colada ao corpo revelando uma saliência abdominal adquirida provavelmente por litros de coca-cola e alguns big-macs.

Logo a mãe coruja ora felina, nos apresentou sua cria que sorriu realçando a brancura dos dentes, dizendo um olá a todos e logo desaparecendo escada acima.

 

ATO V – PORTENHOS NO QUINTAL


Para completar a cena, a campainha gritou. Eu estava na cozinha tentando investigar pistas e colhendo dados para meu artigo abstrato, porém concreto em meu cérebro refinado, quando ouvi um sotaque galego... cocei a fronte revirando os olhos, pigarreando.

 Logo avistei no hall dois homens e uma mulher de aparência cigana, desses que leem a mão, adivinhadores da vida alheia. Fomos apresentados enquanto os gatos miavam eriçando pêlos e unhas. Com o estômago revirado fui levado para o quintal  abraçado pelo homem de rosto rosado com cicatrizes de acne , levado pela mão por sua amiga tímida.

Não sei o que havia escondido naquele quintal, só sei que todos estávamos ali agora em meio a vasos e plantas, e uma tartaruga imaginária que insistia em se esconder entre as folhagens.


Eu olhava com asco aqueles ciganos de aparência seborréica. Tinham os cabelos compridos e despenteados. A mulher vestia saia longa e solta, florida em sua totalidade, exibia também um corpete branco cheio de laçarotes. Os homens, dominados pelo cigarro, falavam baixo e rápido e em sua linguagem portenha eu nada podia entender. Pareciam maltrapilhos. Usavam chinelos ou sandálias(até hoje não sei bem o que era aquilo), de um tecido rugoso e  de tons acastanhados. Um deles usava uma boina típica do Che Guevara.

A cena final caracterizou-se desta forma: Os três maltrapilhos sentados no chão, a dona da casa na soleira da porta, e eu e os convidados apoiados na mureta que embutia o bujão de gás.

Na cozinha os gatos e a lasanha.


EPÍLOGO


De repente fui convidado a visitar o andar superior. Passei em frente a uma estante onde tranquilamente dormiam dois felinos, um branco e um malhado. Eram desses gatos vira-latas que miam para a lua e gemem de madrugada debaixo das janelas.

Sem demora subi as escadas acompanhada da saracura e da tímida que me  levaram até o computador onde tive que ler alguns poemas anárquicos, escritos devassos que sutilmente à primeira vista revelavam um lirismo tosco.

Enfim,  e já sem tempo, as despedidas!! Saí exatamente como entrei. Assustado e só, nem desconfiando que  alguns anos à frente,  eu iria descobrir tudo sobre a colecionadora de gatos.

 by Lu C.

*direitos reservados*


 

 

 

 

 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Bolha assassina

Quando me casei eu não era lá muito chegada em cozinhar, mesmo porque estudava e trabalhava na própria faculdade e chegava um pouco tarde já meio esbagaçada de cansaço.

Minha mãe vinha me "salvar", deixando a casa arrumadinha e deixando a janta a meio caminho andado. Ela cozinhava feijão, temperava os bifes e deixava a salada lavada na geladeira e assim quando eu chegasse faltaria só eu tirar as cartas da manga e começar a jogar, porque pelo menos o arroz eu sabia fazer.



Bom, até aí tudo bem, né gente. Mas teve uma noite em que fui temperar o feijão e fiz tudo como ela tinha me ensinado. Só que esse feijão fervia e fervia e nada do caldo engrossar... Daí eu fiquei com a pulga atrás da orelha e pensei com meus botões: " Ué, porque o caldo não fica suculenteo como os que minha mãe e vó fazem?" Indignada com aquele aguaceiro dentro da panela eu tive uma idéia: BRILHANTE E EXPLOSIVA kkkkkkk... Advinhem o qu eu fiz?

Peguei um copo de água com 2 colheres de farinha de trigo, misturei e despejei dentro do feijão.
CREDO EM CRUZ!!!!!! O treco começou a pular e levantar bolhas e eu mexendo e tudo espirrando em mim, no fogão nas paredes e o bagulho crescendo e pulando fora da panela. Imaginem minha cara de horror?! kkkkkkk

FEIJÃO ASSASSINO

Desliguei o fogo e o treco acalmou, mas advinhem :eu tinha feito um cimento armado com sabor de feijão. FRUSTRAÇÃO TOTAL, mas depois caí na risada e respirei aliviada falando em alto e bom tom:

"AINDA BEM QUE MINHA SOGRA NÃO VIRIA PARA O JANTAR"!

"by Lu Cavichioli em tempos de aprendiz de feiticeiro"

terça-feira, 16 de abril de 2013

Conversando com Clarice - a Lispector





Recadinho de Clarice Lispector - para quem acha que existem coisas IMPOSSÍVEIS

"A maioria das coisas impossíveis são impossíveis apenas porque não foram tentadas. Quanta coisa você não faz por timidez ou medo...

Você já experimentou pintar paredes? Pois, acredite ou não, não é necessário tirar "curso" ( só um curso de confiança em si mesma ajudaria, pois confiança é o que lhe falta).

A tinta, você compra. O pincel, também. A parede você já tem. E duas mãos também. Por incrível que pareça, você é dona dos instrumentos necessários. O que falta mais? Um pouco de ousadia e vontade de se divertir. (E de economizar)

*Palavras de Clarice em seu livro "Só Para Mulheres", onde foi feita uma coletânea das matérias que ela expunha quando era radialista.
A edição está linda e vale a pena ter em sua biblioteca particular.




*nota da Lu - Viver reclamando da vida é fazer desabar a casa, tijolo por tijolo.
Tornar o IMPOSSÍVEL em POSSÍVEL nem sempre é tarefa árdua.

Lu C.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Razões do Coração Cena V e Epílogo


Depois de refazer suas energias Rose dividia um café com o pai ali no refeitório. No rosto ainda trazia resquícios da visão que tivera no jardim.

Pai e filha continuavam em silêncio respeitando as fronteiras do coração até que Suzel adentrou ao salão acompanhada por uma meninota de passos delicados e face cabisbaixa, aproximando-se rapidamente.

Sem conter a ansiedade seu Carmo foi o primeiro a olhar e logo abriu um sorriso largo. Em seguida, girando sobre o calcanhar, Rose deparou-se com a garotinha.

_Muito bem senhores, esta é Angélica, nossa pequena artista.

Rose levantou o rosto lentamente e os olhos cor de mel de Angélica encontraram os seus. Num breve  e doce sorriso Rose estendeu sua mão em direção a ela que prontamente entregou a sua. As peles se tocaram e Rose sentiu um iceberg no estômago.

_Oi Angélica, como vai você?

_To bem, é a senhora que vai me levar daqui?

Seu Carmo estava com os olhos marejados e um leve tremor de mãos e, pelo que sabemos dele, a emoção já o tinha tomado por completo.

-Eu acho que sim, não é mesmo Suzel?

_Perfeito Sra. Rose!

_Quantos anos tem Angélica?

-Tenho quatro, mostrando a idade com os dedinhos ...

Tudo foi muito rápido nesse encontro e enquanto seu Carmo saía com Angélica pela mão, Rose acertava os últimos detalhes com Suzel :

... - Sim, está tudo certo e o retorno da menina fica para o dia primeiro de janeiro.  Aqui nesta maleta estão as roupas e pertences dela.

Feliz Natal e um ano novo cheio de paz, e que a senhora continue conservando esta generosidade que demonstrou.

Obrigada Suzel por sua atenção, nos vemos no ano novo. Feliz Natal!

Rose saiu rapidamente indo para seu carro e enquanto seguia percebeu que seu pai e Angélica  já pareciam íntimos, justamente pelas risadas trocadas e os gestos que sugestionavam alguma brincadeira.
Angélica era uma menina alegre, mas tinha alguns momentos de melancolia que logo foi notado ali mesmo no caminho para casa.
Seu Carmo ia atrás com ela e logo percebeu sua mudez, então puxou conversa:
_Angélica, a tia Suzel disse que você é uma artista, é verdade?

A menina levantou os olhinhos , agora tímidos, respondendo um sim mudo.

-E o que você faz para ser uma artista?
-Eu gosto de pintar e fazer colagens. Gosto de consertar coisinhas quebradas. A tia sempre deixa nosso material na mesinha e a gente vai pegando o que quer. Eu gosto da cola e das tintas brilhantes.
-É mesmo. E onde faz isso?
- Nas aulas de ocupacional... Ai... Esqueci o nome Sorrindo encabulada.

-Seria Terapia Ocupacional - disse prontamente Rose.

-É tia, isso mesmo! E eu sei cantar também e adoro ouvir historinhas.
Via-se que Angélica tinha deixado a melancolia de lado e sua felicidade pintou de paz sua face. E ela desandou a falar.
-Tia, você está me levando pra sua casa?
-Sim, meu bem. Você vai passar o natal com a gente.
-E vou ganhar presente e morar lá com vocês né?
Dentro da cabeça ingênua daquela criança ela fantasiava e a vida dela seria de agora em diante esta família. Embora soubesse por Suzel que iria passar somente o Natal e a festa de reveillon.
As crianças têm normalmente essa capacidade de sonhar inocências e acreditar nelas. Construindo assim seu mundo particular com surpresas e momentos felizes.
Rose foi contundente nessa hora, apesar de seu coração contrariá-la.
_Não Angélica! Você não pode morar conosco, porque sua casa é lá no orfanato com aquele montão de amiguinhos que você tem. A tia Suzel não te falou sobre isso?
-Falou sim, mas é que eu - a melancolia voltava, e seu corpo começou a falar enquanto ela ia aninhando sua cabeça no peito de seu Carmo.
Ele, percebendo a situação a abraçou dizendo:

- Ei pequena artista, que tal um pirulito? - Em seguida tirou do bolso um daqueles pirulitos grandes e coloridos que grudam nos dentes pintando aquarelas nas roupas proporcionando arruaça de doces alegrias.



-Oba, que bonito esse pirulito. É todinho pra mim?

-Sim querida, todo seu.
Já tinha passado do meio dia quando chegaram em casa. O aroma da torta de batata recheada com carne moída invadia a garagem, misturando-se com o pudim de caramelo que estava saindo do forno.
Alice ouviu o ronco da caminhoneta do avô e saiu em disparada para encontrá-los na escadaria que dava acesso à entrada de serviço. Estava tão esbaforida que nem ouvia o chamado do pai.



Quando ela chegou ao topo da escada viu a mãe carregando duas malas e uma boneca de pano chacoalhando os cabelos de lã vermelha. Logo atrás viu seu avô de mãos dadas com Angélica. O sorriso estampado encolheu e ela proferiu:

Ah, você trouxe a menina que mora sozinha pra morar aqui?
_Quieta Alice! Já te explicamos, e vê se muda essa cara, essa é Angélica. Ela vai passar o natal com a gente e vocês serão boas amigas, ok?
Angélica olhou diretamente nos olhos de Alice e tomando coragem disse:
-Oi, você viu meu pirulito? Foi o vovô que me deu.
-O seu avô veio também - cadê ele?
Todos riram desse pequeno diálogo - porém as meninas ainda estavam travando uma batalha velada.

_ Não sua boba, esse vovô aqui - pegando na mão do seu Carmo.

Alice fez careta e completou:

Bobinha é você, e esse avô é MEU!

CHEGA! Interpelou Marcos. Vamos pra sala de visitas terminar de enfeitar a árvore de natal o que acham?

Rose e seu Carmo respiraram fundo meio aliviados porque no ar alguns mísseis ainda saracoteavam.


Epílogo
As meninas ficaram tão amigas que uma não desgrudava da outra e dividam tudo como almas gêmeas.

A noite de natal havia chegado e a casa estava toda iluminada e o pinheiro de Rose fazia as honras.


A mesa central vestia roupa de festa e as iguarias de Tiana anunciavam que a ceia seria inesquecível.
Rose e Marcos estavam terminando de se arrumar quando o celular dela toca. Marcos atende. Mudo do outro lado. Ele desliga.
Toca novamente. Rose atende.
-Alô, alô... - FELIZ NATAL - a voz pronunciava.
-Quem é?
-Sei que você sabe, mas não quer mais se lembrar. Mas saiba que vou te amar eternamente... Ligação encerrada.
Rose caiu sem forças na poltrona.
-O que houve amor?
-... Ai... Marcos me traga um copo com água, por favor.
Depois que Marcos saiu, Rose caiu num sono profundo e sem propósito e então  deu-se o seguinte enredo em sonho:
"O ambiente era claro, porém nebuloso. Havia vozes misturadas e Rose viu-se deitada em uma maca. Sentia náuseas e chorava... Alguém segurava sua mão enquanto um dos vultos ao seu redor dizia:
-FIZEMOS TODO O POSSÍVEL... ISSO É UMA FATALIDADE! VAMOS SEDAR A MÃE, RÁPIDO!
Quando se recuperou lhe contaram que a criança havia nascido morta e sufocada pelo cordão umbilical. A tão esperada e desejada Ana Teresa voltava para o jardim das crianças/anjos.
Após seu completo restabelecimento físico e psicológico ela ficou sabendo que nunca mais poderia ter filhos porque seu útero não contraiu após o parto e precisaram retirá-lo."
Nesse momento ela abriu os olhos e como num relâmpago tudo veio à tona novamente... E ela chorou todas as lágrimas que uma mulher armazena durante a vida.
Esse transe durou segundos e parecia uma vida inteira. Marcos já estava a seu lado com o copo d’água.
-Querida o que houve agora?
Foi ela Marcos... Foi ela, tenho certeza...  Nossa Ana Tereza!
Ela veio até mim e agora acho que encontrei a paz de que precisava.
Marcos a abraçou sem proferir palavra alguma e ali dividiram a dor.
Quando desceram, Rose viu Alice e Angélica abraçadas perto do pinheiro que parecia brilhar mais naquela noite, e sentiu um amor  incondicional pela órfã como se fosse sua cria.
Ali estava seu presente de natal - sob a árvore- junto de Alice.
No dia primeiro de ano ao entardecer Angélica já era parte integrante da família.
FIM

*Tudo pode acontecer quando nosso coração se torna dilatado pelo AMOR!
By Lu Cavichioli
Outono de 2013
São Paulo











quinta-feira, 11 de abril de 2013

Razões do Coração - Cenas III e IV


A semana transcorreu dentro da normalidade de qualquer família que trabalha e cumpre com seus deveres esperando que seus direitos lhes sejam conferidos.
Finalmente no sábado iriam ao orfanato buscar uma companhia para Alice nas celebrações natalinas com direito a passar também o reveillon com a  família




Eram três da manhã quando Rose acordou ofegante com o mesmo sonho que já a atormentava fazia algum tempo. Então pé ante pé desceu as escadas e foi preparar um chá.
Sentada e com um dos cotovelos sobre a mesa, ela apoiava a cabeça ao mesmo tempo em que olhava para o relógio, e seus olhos pesados traziam à tona flashes do sonho.  Nessas imagens ela corria por um campo de trigo atrás de uma menina que teria mais ou menos uns 2 anos. A pequena corria feliz segurando uma palma branca na mão e de vez em quando olhava para trás dizendo :

 _Vem depressa, senão você não conseguirá me alcançar.

Rose piscava e fechava os olhos a fim de lembrar-se do rosto da garotinha, mas era inútil. Parecia que ela não tinha rosto, assim era sua impressão.


Quanto mais ela corria mais a menina se afastava,até o trigal ficar nevoento e nele fazer desaparecer a figura meiga que ela tanto perseguia. E sempre acordava nesse momento. Isso a estava consumindo, e tanto, que ela precisava dividir com alguém.

  Parecia que o chá estava fazendo algum efeito, ou seria o cansaço que estava a lhe vencer?

Rose levantou-se e foi pra sala, onde a luz de um abajur lilás configurava um céu astral no ambiente. Sentou no sofá e lá encontrou a manta do pai cobrindo-se... Enquanto o sono lhe abraçava.

O sol naquele dia permitiu-se nascer às 05h:45min e seu Carmo já estava de pé. Abriu as cortinas, arejou o quarto aproveitando para admirar o jardim, a rua ainda adormecida, as árvores parindo seus pássaros e  logo pensou que naquele sábado iria enfeitar a árvore com Alice. Subiria ao sótão  para fuçar nas caixas, pegar as bolas coloridas e os enfeites novos que Marcos comprara. Estava mais do que na hora de arrumar o pinheiro, aliás, atrasados demais para o gosto dele. Mas antes sentou-se na cama, em frente à janela, lembrando-se de como Rose gostava de pendurar os enfeites e as frágeis bolas feitas de vidro pintadas à mão. Naquela época sua garotinha tinha seus 5 anos de idade  acreditava  piamente na existência do bom velhinho fazendo seus pedidos por cartinhas que eram “supostamente” enviadas ao Polo Norte, e de quanto eles se divertiam escrevendo-as.

 Rose era irreverente, curiosa e muito inteligente e como toda criança cheia de perguntas, muitas das vezes tão pitorescas que era quase impossível de responder. 

Lembrou-se também da primeira vez em que ele e sua esposa trouxeram a primeira órfã para passar o natal com eles. Era uma garotinha graciosa, sardenta e de cabelos ruivos e escorridos. Tinha um sorriso inexplicável no rosto e distribuía abraços e afagos a todos que encontrava, mesmo que nunca os tivesse visto. Naquela manhã chegaram com Emma em casa e lhe apresentaram Rose que na mesma hora fez uma careta de desapontamento e ciúme.

Emma a abraçou dizendo que seriam amigas e que o Papai Noel viria porque elas tinham sido boas meninas durante o ano e mereciam ganhar recompensas. Rose mostrava a língua e virava as costas para a pobre que chorava em segredo. E foram-se lá três ou quatro anos de busca para o encontro entre as meninas e Rose. Pena que em todas as vezes ela emburrava .

Perdido em suas lembranças seu Carmo nem percebeu as horas e quando deu por si eram 07h:15min e seu estomago roncava feito locomotiva enferrujada.

Colocou seu robe saindo no corredor sabendo que a família dormia tranquila (ainda). Desceu as escadas com o intuito de ir preparando o desjejum quando viu a filha dormindo no sofá. De pronto estancou seus passos na escada. Coçou o queixo desenhando no ar uma expressão aturdida e perdida nas horas em que ficara sentado em sua cama vagueando enquanto sua filha dormira no sofá... Estranha sensação aquela - o que teria acontecido?

Aproximou-se do sofá, ficou a admirá-la e ali sentiu o quanto a amava. Sim, amava mais que a própria vida e percebeu em seu rosto sereno o quanto era linda. Seus cabelos, de um louro acinzentado caíam em cachos pela almofada, e ainda conservava a forma antiga de dormir - com os braços enlaçados em si mesmos e uma parte do rosto aconchegada no seio da almofada. A boca delicada e rosada lembrava a mãe...

Seu Carmo ficou ali por alguns segundos, talvez o bastante para que o filme de sua vida lhe contasse que estava no fim dela e que poderia partir a qualquer momento. No entanto iria feliz pela missão cumprida e por saber que tinha entregado sua filhota a um homem íntegro e de caráter irrevogável.

Sua costumeira pigarra matinal lhe denunciou, acordando Rose, que abriu os olhos sem atinar onde estava. Mas logo seus reflexos lhes fizeram levantar, esfregando os olhos e bocejando, vendo a figura de seu velho bem ali, plantado na beira do sofá.
-Hã... Oi pai... Espreguiçando-se
-Filha, você passou a noite aqui?
... É... Que... Ai papai foi sim. Estava sem sono, vim tomar um chá e acabei me encostando aqui e... Ah, foi isso, nada demais, nem se preocupe.

Num sobressalto exclamou alto:
_NOSSA, QUE HORAS SÃO? Ficamos de ir ao orfanato... Ai que cabeça a minha...
Seu Carmo riu-se  ajudando-a a levantar.
-Pois é filhota... Mas fique calma, ainda é cedo e eu já telefonei ontem para o orfanato avisando de nossa ida.
-Ahh, menos mal. Bem, já que acordei de um sonho bom, vou continuar nele e tomar café com o velhinho mais adorável do mundo.



 CENA IV

O Orfanato ficava em local afastado da cidade e sua arquitetura imponente e lindamente antiga fazia parecer uma estampa vintage.

Na última curva da Estrada dos Pêssegos, Seu Carmo sorria e em seu contentamento dizia:



_Ah, olhe filhota, o prédio foi conservado, só mudaram a cor. Está muito mais alegre do que há 30 anos, você lembra como era?

-Não muito pai. Lembro-me da fachada acinzentada e dos lampiões plantados logo na entrada, do jardim...  Mais ou menos. Acho que tinha um roseiral enorme, com alamedas de cerâmica, sabe aquelas de caquinhos mesclados - correto?

-Isso mesmo, balançando positivamente a cabeça e esticando um sorriso franco.

Chegando ao portão principal perceberam que havia no local uma guarita com seguranças e precisavam se identificar para terem acesso. Feito isto, o vasto portão rosado abriu-se duplamente para os lados e seus arabescos encantaram Rose que ficou admirando e tanto, que precisou olhar para trás vendo-o fechar-se lentamente.


Entraram por um caminho ladeado por jardineiras múltiplas com uma variedade quase infinita de flores. Rose ia observando encantada o lado direito da paisagem que exibia um pequeno bosque com ciprestes, numa grande variedade e algumas coníferas já exibiam seus frutos  e nos espaços entre elas haviam alguns arbustos floridos com lavandas e mini -rosas.



 Já do outro lado havia  um gramado onde a clorofila era sua rainha , permitindo às  borboletas  brincarem  com abelhas e beija-flores  sobre um canteiro de margaridas e sempre-vivas. Ao longe deste mesmo lado, havia um conjunto de casinhas que lembravam um acampamento de férias.

O caminho até a entrada era um tanto longo e pai e filha iam felizes e encantados até estacionarem o veículo nas vagas em frente a uma escadaria larga com piso de granito mesclado entre o branco e o bege.

Ao descerem do carro avistaram no alto da escada uma mulher de aparência jovem, metida em um terninho azul marinho com risca de giz e uma camisa de seda branca com detalhe num delicado laçarote no pecoço. Trazia nos cabelos ruivos uma tiara da mesma cor do terninho.

Seu Carmo, apesar da idade, subia as escadas como se fosse um menino indo em busca de doces. Rose o segurava pedindo calma, e com certeza sua costumeira ansiedade já aflorava e sua pressão arterial fervilhava.

Bufando e com o rosto afogueado seu Carmo cumprimentou a moça:

_Bom dia, moça - qual sua graça?

_Bom dia, senhor - meu nome é Suzel - e dizendo isso estendia a mão para Rose fechando as apresentações.

-Estava a espera de vocês. Falei com o senhor ontem, pois não?

-Sim, sim. Viemos buscar uma garota.

Os olhos de seu Carmo brilhavam e Rose pode ver estrelas neles.

O vozerio das crianças enchia o corredor e Rose viu-se menina dando a mão para sua mãe. Rapidamente olhou  o piso e entrementes pensou: “o mesmo piso...” Olhou em volta recordando as paredes, as tapeçarias o corrimão, tudo igualzinho e muito bem conservado.

Suzel levou-os até seu escritório onde poderiam conversar com mais calma. Porém seu Carmo não conteve a curiosidade e perguntou:

-Com licença moça, você por acaso é parente da Sra. Dis’téfano?

-Com um sorriso encantador e cheio de saudade a garota respondeu:

_Sim, ela era minha avó.

_Era?

-Infelizmente. Ela faleceu há um ano, senhor.

As estrelas nos olhos de seu Carmo emudeceram de brilhar. Quebrando o gelo Rose perguntou pela menina que iriam levar, demonstrando desejo de conhecer as dependências do orfanato.

A caminho do refeitório passavam pela varanda gigantesca protegida por muros vazados permitindo ver (ainda) uma fatia do jardim.

Rose caminhava lenta e ao mesmo tempo olhava para o bosque de ciprestes quando parou soltando um “OOOH” acústico assustando seu Carmo e freando Suzel num sobressalto.

-Olhem, olhem... Rápido! Quem é a menina que corre entre o arvoredo?

Suzel mirou seus olhinhos frenéticos e nada viu. - Você viu, pai... Uma garotinha correndo com vestidinho amarelo e cachos voando ao vento.

Seu Carmo segurou forte no braço da filha puxando-a pra perto dele. - Rose! Rose! Que menina??? Não há ninguém ali.

-É bem verdade, senhor - exclamou Suzel- nossas crianças não ficam soltas no bosque sem companhia.

Rose sentiu uma tontura e teve que ser amparada por eles. Fizeram-na sentar em um banco ali mesmo na varanda... Enquanto ela insistia ter visto a menina passou a mão pela franja e seu rosto estava transformado numa expressão de pavor e amor.

Como poderia tal mistura dentro de um coração?



(...) continua