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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Abril ainda bate fundo em mim

Boas tardes, caríssimos!

A blogada de hoje traz um texto com ventos de abril e que estava guardadinho na gavetinha das minhas papeladas que não dou muita importância. Sabe aquelas coisinhas que a gente escreve e acha que não tem nada a ver... Pois então, é por aí a coisa. Contudo, eu arrisco pra ver se eu petisco rsrs

Lá vai para apreciação de todos que aqui vierem - obrigada!
BOA SEMANA!




Traço Vermelho




Nestes dias melancólicos de abril eu só quero dormir. Desejo embrenhar-me nos fios macios de meu cobertor cinza ratinho.

A chuva impiedosa alaga canteiros, ruas, telhados... E vai de encontro às minhas lágrimas internas - aquelas lágrimas que não molham, mas encharcam a alma de tormentos, desenhando rios salgados com barcos encalhados no cais de um mar imaginário que poderia ter águas doces.

O silêncio das paredes, dos objetos, dos pássaros encolhidos, do edifício ao lado, testemunham minha estátua nas mãos do escultor de linhas e traços, e  que a cada passada de espátula fere mais e mais a mistura de sal, afeto e lágrimas. E nessa argila descolorida reorganiza faces sem rosto. Mãos sem gestos. Olhos nevoentos e corpo sem movimento.

Terminado o trabalho, a redoma se fecha e a imagem esculpida, de certa forma, esboça em seu peito palpitações vermelhas.

By Lu Cavichioli

São Paulo - abril de 2012



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Série: "Eu escrevia assim(...)"

Pessoal, esse texto foi escrito no final dos anos 70, em virtude da descoberta sobre bebês de proveta.
Na época, o texto doi selecionado para figurar no jornalzinho do colégio e foi aprovado pelo conselho dos professores do Colégio XII de Outubro, onde cursei o técnico em Secretariado.

Vamos a ele - obrigada!



Arte(fato)





Então ele veio de longe, não iria vir, mas...

Em seu pequeno mundo interno e distante existiam pensamentos assim: - “será que serei sempre essa partícula  a vagar sem rumo?”

Que pena, não havia resposta!

E um dia, sem mais nem menos, aquela partícula inconsolável foi retirada de seu habitat. Deram-lhe um novo lar, cristalino e transparente. E sem que  pudesse reconsiderar se queria ou não estar ali, percebeu que tinha visitas. Achou-se frente a frente com milhões de soldadinhos apressados que corriam ao seu encontro, e  como eles eram familiares ficou toda sorrisos, embora não tivesse a mínima consciência do que ia lhe acontecer dali por diante.


Passou-se alguns dias e nosso personagem que já estava meio gordinho, com formas diferentes, mudou-se de aposento voltando ao planeta natal. A partir daí , sentiu-se pela primeira vez feliz e em segurança. E pensava consigo: - “Fui vítima de uma metamorfose!? Mudei muito desde que engoli um soldadinho daqueles!!


Mexia-se muito nosso pequeno amigo, espreguiçava-se, querendo até ficar sentado -  por aqui está tudo tão apertado... "Quando será que vou sai(...)" - resmungava.


 Passado mais algum tempo, nosso camaradinha assustou-se!
 Sem querer havia ficado em uma posição estranha, estava de ponta cabeça. Ah, ele já não entendia mais nada! Até que numa tarde o milagre da vida penetrou em nosso amiguinho .

Surgiu através de nuvens brancas e janelas ensolaradas. Sentia muito frio, mas trazia no rosto um sorriso de contentamento. Estava tão feliz que exclamou:

__ SOU GENTE!!!


by Lu C.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Outras Águas




Minha imagem afastava-se da realidade sob a fresta azul marinho de um olhar. O meu olhar! E todos os elementos se cristalizavam na pedra da ilusão enquanto eu me perguntava se a vida valia a pena.

(...) Certamente, respondeu meu alter-ego.

Olhei em redor e vi que o vento fazia festa em meus cabelos, que leves, dançavam na maresia de uma viagem sem regresso.

Quanto mais eu me distanciava do real (que era subjetivo), ia matando minha figura patética, outrora viva, para renascer (quem sabe), sereia em águas outras.

Depois de um sono agradável, tomei um banho e me vesti de festa para estrear minha primeira noite a bordo. Usava neste momento uma peruca ruiva do tipo chanel , talvez um mecanismo de defesa contra egos estúpidos.

Metida em um vestido preto liberto de repressões antigas eu desfilava minhas pernas e músculos de manequim, que respiravam embriagados, o marítimo aroma noturno. Estava eu diante da face negra do mar, um mar aberto, abraçado apenas pelo céu que trazia um pendente prateado (quase neon), iluminando rastros selenitas.

Será que alguém poderia me enxergar, ali parada no deck superior, debruçada no anteparo aventureiro de um navio apinhado de almas?

- Quem sabe, resmunguei...

Oxalá eu fosse Bilac somente por alguns instantes e ali perguntar se realmente ouvi estrelas. Mas preferi ser mares hasteando Bandeira, deixando-me levar por “quintanares”, onde a alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

Dei meia volta acenando um talvez pra mim mesmo, indo embriagar-me de humanidades. Posto que (ainda) era pele, sal, sorriso e afeto.

by Lu Cavichioli
maio/2012

domingo, 8 de julho de 2012

Kepler, a Lua surreal de Pandora


arte de imagem Graça Lacerda em Pandora


De todas as ciências, a matemática sempre foi uma espécie de trator intelectual agindo drástica (mente) em mim. Na escola eu levava reguadas na cabeça e puxões de orelhas por causa dessa maldita e rabugenta proprietária dos números.

Nunca me dei bem com números, nem cálculos e muito menos com fórmulas, essas abobrinhas generalizadas e tão exatas que deixam qualquer um atormentado, e “desneuralizado”.  (Ainda bem  que  a licença poética abre alas para meus neologismos desconcertantes- ufa!)

Em uma dessas madrugadas alopradas eu sonhei com esse cara aí, o Kepler e sua  “física celeste”.

Lembro que era de noite e o céu estava limpo, escuro e repleto de balões  desses em que a gente entra e vai dar um passeio nas estrelas. Eram muitos e dava até  certo pavor olhar aquela dança metafísica e colorida.
Eu estava maravilhada com o balé e o mais assustador é que eu esticava a mão e podia tocar os balões. Muito surreal... Mas o que eu não esperava é que entre os balões existisse uma esfera luminosa, inquebrável e arrogante. Eu disse arrogante? DISSE!! Justamente porque eu não conseguia toca-la.  Mas, acreditem ou não num ímpeto desastrado eu voei e fui cair justamente na Lua desgarrada entre seus filhos -  os ditos balões.

Eu tinha caído aos trancos e barrancos,  mas não sentia dor nenhuma porque eu voava em espírito, livre de todas as dores e males.  Lá em cima, na esfera arrogante eu era branca, quase transparente. Meus movimentos eram refinados e meus pés flutuavam  e as cores dos balões passavam por mim como brisa.

Continuei deslizando feliz quando me deparei com a figura de uma mulher nua, de pele alva e cabelos cor de fogo. Ela estava sentada em uma pedra e segurava nas mãos uma caixa de prata. Aproximei-me . Ela hesitou! Eu a olhei fixamente e tive medo porque ela rodeou a pedra sumindo nas estrelas. Porém a caixa ficou sobre a pedra...

Senti a vontade imediata em abrir a caixa, mas eu  me lembrei da matemática que era exata e eu inexata e desativada.

Os balões continuavam a rodear-me e a Lua surreal começou a girar rapidamente e eu vi relógios e seus ponteiros escravos andarem ao contrário e todos os números gargalhando sobre meus neurônios imbecis que só conheciam o abecedário que só  sabiam formar palavras e as palavras só sabiam formar frases e as frases só aprenderam a gerar parágrafos, e então apavorada eu percebi que Kepler estaria em tudo porque tão somente era exato, definido e sem possibilidade de erros. Ele e sua mal falada filha adotiva - a matemática, já que Pitágoras cansou das cornucópias frutíferas  de um pentagrama esquecido nos séculos da humanidade.

Acordei espantada , mas feliz porque Pandora desapareceu pra sempre. Ela e sua caixa que só continham males , sombras e mentiras. Contudo ficou uma dúvida:

Por que Pandora sumiu deixando a caixa pra mim? Será que o segredo de Pandora era aquilo que Kepler chamava de razão astronômica da física, onde os males espalhar-se -iam pelo universo e os números ficariam mais acessíveis à esta pobre cabecinha - a MINHA?

Talvez...

Texto dedicado a Pitágoras, o Pai da Matemática e a Kepler, o Pensador das Estrelas.

By Lu Cavichioli

São Paulo/ julho/2012






sexta-feira, 6 de julho de 2012

Aventuras de Dona Carochinha no século XXI


A vida secreta e pessoal da Rainha Má




Escutei certa noite em que jogava cartas com o Príncipe Philip, que a  Rainha Má era drag queen e fazia seus shows em casas noturnas nas cercanias do Castelo.










O Castelo e suas cercanias


Conta-se à boca pequena que  o pai de Branca de Neve em uma dessas noites assoladas pela viuvez saiu em busca do Vale Encantado para ver se o sol iluminaria cachoeiras ,regatos e fontes espantando o cavernoso inverno interior que deixara suspiros glaciais em seu peito.
O infeliz ia cabisbaixo sacolejando em sua carruagem quando uma das rodas soltou provocando voos desajustados. O cocheiro  saltou boquiaberto diretamente para um galho seco que despencou logo em seguida lançando o coitado em uma poça de lama. O Rei caiu na beira do caminho rolando alguns metros à frente da carruagem ferindo-se na testa , desmaiando. Quando recobrou os sentidos veio logo aos seus ouvidos um som abafado de uma música que o lobo-mau  costumava dançar antes de levar chapéuzinho pra casa da vovó... Se não me engano , a música era do grupo Village People- YACM - alguém conhece?









Lobo-Mau indo pra balada

Mas que diabos -  exclamou o Rei segurando a cabeça com uma das mãos numa expressão de dor e terror?! Sentado na cama ,metido num pijamas de bolinhas vermelhas, o Rei ficou perplexo quando viu ao pé da cama uma mulher exuberante e de olhar sensual exibindo um vestido cor de maravilha colado ao corpo provocante.








Lady Dragão

 Deslizava sobre o colo protuberante um feixe de diamantes em formato de cobra e os cachos tingidos de pink  deslizavam plenos, ombros abaixo . O olhar desta mulher fatal foi a derrota do Reino, pois a figura angelical escondia sinistro futuro para os súditos e seria mortal para a formosa e inocente Branca de Neve.


O rei gesticulou feito marionetes  num ímpeto de fuga, mas foi logo dominado pela delicadeza da (mocréia) Dona Lady Rochelle que o beijou ternamente jurando amor eterno.


O casamento aconteceu com grande pompa e os reinos vizinhos trouxeram presentes e majestades enfileirados numa caravana surreal... Imaginem que até aLady Gaga estava presente.
Dona Lady Gaga


Passado algum tempo o rei caiu enfermo com dengue e morreu rapidamente.


Era uma vez um Rei
Lady Rochelle, foi coroada Rainha e Branca de Neve com seus 10 anos lutava judô e fazia aula de tiro ao alvo quando foi surpreendida e arrastada à força para a  torre mais alta do castelo e lá ficou até Spilberg enviar o E.T. para salvá-la. Mas isso demorou alguns anos...


Branca de Neve esperando E. T.
O reino e seus súditos odiavam  sua majestade que  já era rainha antes,  e que poderia virar  um Dragão cuspidor de sangue se assim desejasse.


Uma noite, o  dragão que era rainha andava de patins sobre o rio congelado quando cismou de tirar o espelho da bolsa para retocar a maquiagem. Neste momento seu celular tocou e do outro lado da linha uma voz meio rouca lhe dizia: FAÇA A PERGUNTA antes que seja tarde demais! Sem demora Lady Dragão, após retocar o batom olhou para o espelho dizendo: Espelho fedorento e insignificante, existe algum dragão mais bonito do que eu?


Neste momento o espelho cantou Macho Man e ela num sorriso frenético fez espacate indo dormir em seguida pensando em sonhar com o caçador de androides para um “servicinho” sujo logo mais.



Porém o que ela não imaginava é que a Princesa tinha feito um curso (às escondidas )com a tropa de elite do Rei Arthur.


*alguém tem noção do que vai acontecer com Branca de Neve?

Será que ela vai virar Patricinha?


Até mais!


By Lu Cavichioli



quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Cajueiro, a Sinhazinha e o Novelo de Lã


*Quem conhece minha literarura sabe que viajo através do fantástico mundo surreal e este causo (desta contadora de histórias), é prova disso.*


(uma parábola sertaneja/florilégio daquelas de arrepiar assombração)

Todas as tardes  a Sinhazinha sentava-se à sombra do Cajueiro e ali ficava cirandando metonímias e desenhando estátuas de papel.
Tinha dias que ficava em sua cadeira de balanço, fincada ali no alpendre olhando lagartas comedoras de samambaias.






A SINHAZINHA





 QUE VIROU PÁSSARO MUSICAL
 



 



De noite o cajueiro se disfarçava em silêncio inquieto enquanto a Sinhazinha se confundia com notas musicais e o novelo de lã virava borboleta.

O Cajueiro pensava que tinha brilho próprio porque todos que passavam pela estrada do rancho paravam ali pra admirá-lo.






O CAJUEIRO
 
O novelo de lã que era borboleta confundia-se  com teias de aranha e a Sinhazinha virava bem-te -vi , pulando em pianos afinandos.


O NOVELO DE LÃ QUE VIROU BORBOLETA
 
 
 
Sinhazinha tinha um filho que era tocador de viola e escrevia cartas de amor para as nuvens. De quando em vez cismava e montava em seu alazão com chicote, cantil e sonhos de poeta golpeando na espora, o seu galope certeiro sem olhar pra trás. Quando isso acontecia, ela ficava na janela de cotovelos apoiados e mãos no queixo acenando saudades, e vendo homens com asas de anjo. Então ela chorava, buscando acolhida no cajueiro que marcava encontros noturnos com a borboleta que era novelo de lã.


FILHO DA SINHAZINHAIlustração: Juraci Dórea.
 
 
Certa noite, lá pelas bandas da cidade, bem longe da casa de Sinhazinha, eu tomava meu velho e bom uísque no único bar local quando ouvi alguém gritar: -“Valha-me Deus”! Então numa fração de segundos eu me virei  olhando para a entrada  dando de cara com uma figura sinistra.

Parado feito abóbora macabra em dia de halloween o homem olhava a todos com certo olhar debochado e cínico. Sem demora tomei um trago que desceu meio torto e fui logo perguntando ao jagunço Cabralzinho quem era a figura.

O CURANDEIRIO
 
 

Cabralzinho era homem queimado de sol e pele craquelada. Usava um chapéu amarelado que encobria sua juba encaracolada e fedida. Da sua boca saia alguns sons fétidos e a falta de alguns dentes lhe conferia um sorriso esquelético. Foi aí que ele me disse: ´-“Esse cabra é o curandeiro que mora em Rio das Pedras... O moço num cunhece?”
JAGUNÇO CABRALZINHO

Balancei a cabeça em tom negativo e pensei comigo: “CURANDEIRO”? ISSO AINDA EXISTE POR ESTAS BANDAS?

De repente a figura bizarra de barba comprida e negra  e rosto sisudo sustentava um capuz com cara de edredon patchwork,  e uma capa amarrada ao pescoço, aproximou-se perguntando por uma tal de Sinhazinha e onde era o rancho dela.
O bar Man desconfiado botou copo e cachaça na bancada sem mesmo o velho pedir e foi logo respondendo inocentemente:
“O rancho de Sinhazinha fica pra mais de algumas léguas depois da Ponte do Chumbinho”(...) Mas pra mor de quê o senhor quer saber?
_Interessa não, filho de um cão! Cala essa latrina antes que eu lhe amaldiçoe e tu vire um sapão daqueles bem verdes e pançudos.


SAPO VERDE E PANÇUDO


Eu saí de fininho e pus-me a correr em direção oposta à que ele tinha perguntado. Depois disso, fiquei  meses sem ter notícias daquele homem que mais parecia personagem de um teatro mambembe.
Fiquei sabendo depois que o homem queria mesmo era conhecer o cajueiro que virou fogueira de São João... Sabe-se lá por quê!?

Ô Coisa esquisita  sô!
Esse causo ainda é contado através dos lampiões de gás do século XXI e de tempos em tempos ainda posso ouvir o som da borboleta voando sobre o cajueiro da Sinhazinha que tecia teias com o novelo de lã enrodilhado na gaiola pendurada na toca do curandeiro.

Dizem que essa historieta virou imagem holográfica e viajou universos.
... Caso estranho esse! Talvez  haja continuação, se eu conseguir desenhar o mapa  astral, escondido sob o novelo de lã que a sinhazinha enterrou ao pé do cajueiro.

By Lu Cavichioli


domingo, 24 de junho de 2012

Meu Silêncio


O Lago era calmo em todo seu esplendor

Meu corpo estático parecia fazer parte
Da relva em que pisava, tal era a força

Incontrolável que  meus pés prendiam

 A quietude cortava o céu e a luz penetrava as copas floridas do bosque.
Na terra, pegadas invisíveis deixavam o rastro tranqüilo dos que dormem.

Naquela tarde minha única tentativa era  conhecer minha origem, eu precisava

já que acordei pra vida e ninguém soube até agora dizer meu nome.

Eu entendia  os pássaros e   seus cantos. Voava nas delicadas asas da libélula, e minha figura cruzava os ares
Mas naquele dia estava eu criando raízes. Minhas entranhas, amalgamadas em riachos e quedas. De lágrimas e cachoeiras cristalinas meu coração gritava em alvoroço.
A natureza fizera de mim parte integrante.

Quem sou eu?.
By Lu Cavichioli