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RAZÕES DO CORAÇÃO


Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência


Prólogo

Rose costumava comprar os presentes de natal antecipadamente e naquele ano não seria diferente. Contudo, a ceia de natal reservava algo inusitado a todos e a busca por algo diferente para ser colocado sob sua árvore natalina a estava deixando cega, surda e muda de tanta ansiedade e quem sabe um receio ,que lá no fundo de sua alma, tinha a face desconhecida da surpresa.





A idéia de meu pai não era de todo má e muito menos novidade para mim. Faltava duas semanas para o natal e eu nem sequer havia feito a lista para a ceia. Meu trabalho na clínica estava me consumindo e há muito eu manifestava um desejo mudo em deixar tudo de lado e continuar com o que eu gostava de verdade, que era restaurar quadros e peças antigas.

Papai morava conosco desde a morte de minha mãe há três anos. Ele não era mais um jovenzinho, mas eu não o via com 73 anos embora já demonstrasse algum sinal de surdez e sua caminhada agora era lenta. Contudo, ele era ativo, esperto e muito lúcido. Ele fazia questão (ainda) de criar projetos na área de edificações, mesmo que fosse uma casinha de bonecas para Alice.

Aproveitando minha folga na clínica, eu e meu velho resolvemos conversar seriamente sobre a proposta dele e que mudaria minha vida. Bem ali, juntinhos na rede enquanto esperávamos Alice voltar do colégio, dividiamos um pequeno chá da tarde com algumas torradas, manteiga com geléia e um fofinho bolo de laranja com cobertura glaçada que ele mesmo fazia questão de preparar.

Meu pai era um homem generoso em suas decisões e sábio ao lidar com situações delicadas. Desde cedo aprendi com ele valores preciosos sobre a vida como por exemplo, uma certa reflexão que ele chamava de auto análise.

Sempre foi um homem ponderado, correto e de um caráter íntegro e sincero, quer fosse em casa ou no trabalho. Talvez por isso tivesse tantos amigos.

O chá emitia seu perfume entrelaçado em uma névoa branca que subia da xícara invadindo a varanda. O por de sol já mostrava sua aquarela quando o ouvi pigarrear, e isso era um sinal de que ele ia começar a falar e queria minha total atenção.

Olhei sorrindo com o canto da boca e piscando ao mesmo tempo que passava minha mão em seu rosto:

_Vamos lá papai, diga logo o que está pensando.

_Vejo que me conhece do avesso né querida? - Lembra filha, quando trazíamos uma companhia pra você no natal?

_Sim, paizinho, lembro-me como se fosse hoje... Eu morria de ciúme , mas hoje compreendo o bem que fizeram àquelas crianças, mesmo que a dor fosse dobrada ao devolvê-las para o orfanato. .. E olha, nem precisa continuar a dizer nada, porque já advinhei tua fala.

Ele sorriu e me beijou docemente na testa.

-Olha pai, eu falei com o Marcos e ele concordou. Semana que vem podemos ir juntos ao orfanato... Aquele que fica no km24 da Rodovia do Pessego, é aquele não?

_Sim filhota é aquele mesmo... - você era apenas uma menina. Ah, mas deve estar todo reformado e aposto que a Sra. Dis'téfano nem está mais lá.

-Pode até ser pai, tudo é possível. Eu até gostaria de vê-la, nem me lembro de seu rosto... o que ficou em minha memória foi somente o coque que ela ostentava no alto da cabeça e aquele óculos de aro dourado que eu achava que era de brinquedo, lembra?

Caímos na risada e eu me senti menina novamente , mas mesmo assim um canto de dúvida pairou sobre o olhar de papai...
_ O que foi pai?
_ Ah filha, sera que Alice vai aceitar um órfão para passar o natal e ano novo com a gente? Tenho cá minhas dúvidas.

_Poxa, agora que você tocou no assunto, devo confessar que Marcos fez a mesma pergunta ontem. Mas olha paizinho, ela já tem seis anos e...
Os olhos de Rose ficaram marejados e seu pai segurou firme em suas mãos e disse com aquele tom de voz tão conhecido por ela e que lhe acalmava todas as dores.

_ Minha querida, pense bem... Você já superou o fato e sabe que teu marido é aberto a qualquer decisão que tomar a esse respeito.
_ Eu sei pai, mas é que isso me persegue e assombra e você é testemunha de meus pesadelos. Ah, mas deixa pra lá... -- Seus olhares foram interrompidos pela buzina da perua que chegava com Alice.

-Ah, chegou a boneca do vovô!

Alice saiu em disparada e num piscar de olhos já estava empoleirada no colo de papai.

_Sabe vovô eu desenhei um castelo hoje, igualzinho daqueles que você faz pra essas pessoas ricas e que pagam pelos teus "rabiscos" feitos a régua.

Meu pai sorria balançando a cabeça dizendo:
_Não são castelos querida, são apenas casas e que de tão grandes podemos chamar de mansões.
-Ah, pra mim são castelos... E dizendo isso deu-lhe um beijo, me abraçou e saiu correndo ao encontro de Thor, nosso cão labrador.

Como é bom ser criança e saber-se livre na inocência da infância.

Depois de nossa costumeira oração à mesa antes do jantar, Alice estava agitada e com sua impaciência me perguntou:

_Mãe, você já telefonou para o Papai Noel?

Marcos sorriu com seu olhar periférico tamborilando os dedos sobre a toalha, enquanto papai dizia que tinha perdido o número do telefone e que talvez Papai Noel tivesse facebook.

_PAPAI! Ralhei imediatamente. Eu queria essa parafernália tecnológica longe de minha filha por enquanto, afinal ela só tinha  seis anos.

_Calma filha, e não pode ser verdade? Afinal hoje está tudo informatizado.

Alice fazia caretas e batia com o garfo no prato irritando-me. - Oi manhê, você ouviu o que eu falei?
Com cara de empada eu respondi:
_Telefonei, mas ninguém atendeu. É que ele deve estar viajando, você sabe que nessa época ele precisa visitar muitas crianças.

_AHH , mãe, mas eu quero meu presente e ele vai me dar né?

___Claro filhotinha - exclamou papai. - O vovô é amigo dele e vai dar um jeito.

Revirei os olhos enquanto Marcos disfarçava para não gargalhar com as palhaçadas de meu pai.

O fim de semana foi intenso de brincadeiras e compras. Eu queria um pinheiro natural e estava batendo cabeça pra achar uma dessas casas botânicas onde eu pudesse entrar e nela me perder entre flores e seus aromas.

Depois de percorrer alguns bairros achamos o "Central Gardem Palace"- uma estrutura plantada no meio aos monumentos urbanizados recheados de concreto e tecnologia. - OH,Exclamei! Que bom que existem lugares como este ainda.

Alice corria na frente enveredando pelo laribirnto floral repleto de gaiolas brancas com passarinhos artificiais e ao mesmom tempo passando a mão nos vasos que encontrava .

Papai e eu batemos o olho no mesmo pinheiro e dissemos em uníssono: _Olha aquele ali, está
lindo'!

aguardem o andamento com o final.




Depois do pinheiro eleito, Rose aproveitou para levar algumas mudas para o canteiro da ala oeste que estava um pouco abandonado e onde havia abundância de luz sem o comprometimento de um sol a pino. Por isso deu preferência para os Lírios da Paz e Antúrios.

Perguntou ao pai se ele queria algo em especial já que era um amante das flores, e seu Carmo escolheu um vaso com Amarílis já todo ornamentado e prontinho para colocar na entrada da casa.


Depois do pinheiro eleito, Rose aproveitou para levar algumas mudas para o canteiro da ala oeste que estava um pouco abandonado e onde havia abundância de luz sem o comprometimento de um sol a pino. Por isso deu preferência para os Lírios da Paz e Antúrios.

Perguntou ao pai se ele queria algo em especial já que era um amante das flores, e seu Carmo escolheu um vaso com Amarílis já todo ornamentado e prontinho para colocar na entrada da casa.

Alice ganhou uma gaiolinha com um agaporne artificial que falava sempre que mexia seu pescoço.

Aproveitaram para almoçar no restaurante do Garden, onde mais tarde encontraram com Marcos e todos se deliciaram com os pedaços carnudos de um frango a passarinho com salada e pão italiano com sardela.

A semana começou com uma garoa fina e um nublar de céus estranhamente configurados para um verão no país tropical abençoado por Deus. Contudo, as obrigações do dia a dia não param e Rose acabava de chegar à Clínica.

Algumas clientes já estavam à sua espera e ela correu pra agenda verificando o que tinha naquele dia. Felizmente só tinha três atendimentos e dois deles eram rápidos. Seus pensamentos estavam nas compras de natal e na visita ao Orfanato. Sua ansiedade aumentava a cada hora e via-se que estava dispersa, porém procurou manter o foco, mesmo porque a cliente não parava de falar mal do marido que dizia que ela precisava mesmo de muita massagem e regime porque estava gorda demais.
Depois de atender sua última cliente, Rose desceu para a copa pedindo um café e ali se sentou cabisbaixa com seu olhar fixo no olho negro da xícara que exibia sua bebida. Seu corpo ali estava, mas seu espírito parecia vagar no infinito de seus pensamentos até que tilintou o celular.

Num sobressalto voltou ao mundo real:
_Alô!
_Rose?
-Sim, quem está falando?

-Você não reconhece minha voz?
_Deveria?
Houve um silêncio assustador, porém breve.

_Alô - chamou Rose

A mesma voz continuava insistindo que ela deveria reconhecer com quem falava.
A voz era feminina e tinha um tom infantil e se permitia falar com alguma intimidade, como se conhecesse Rose há muito.

Rose já sem paciência estava quase desligando quando ouviu:
- Não se esqueça de mim, eu te amo.

Depois disso a ligação foi encerrada. Rose ficou pálida e quase sem ar e sem pensar muito pegou sua bolsa saindo rapidamente, tentando sem sucesso retornar a ligação . No visor sempre a mesma resposta: número inválido!
O fim da tarde se aproximava e a torrente de pensamentos a estava deixando meio zonza, até que resolveu ir diretamente às compras de natal sozinha e totalmente decidida a comprar o que cada um deveria receber segundo suas preferências. Contando com sua capacidade intuitiva que sempre lhe salvava na última hora.
Ao término da árdua tarefa dos presentes, Rose voltava pra casa e enquanto dirigia ,um pensamento voltava a lhe atormentar- o tal telefonema e a voz suave e melindrosa que tilintava em seu ouvido. Aquilo mais parecia um sonho com gosto de pesadelo carregado de mistério e ao mesmo tempo mesclado com certo desejo de ouvir novamente. Contudo, disse a si mesmo que por enquanto esse acontecimento deveria permanecer em segredo.

Ao chegar na porta de sua casa, enveredou seu veículo para a garagem acionando o portão eletrônico. Marcos estava no jardim com ar de preocupação.

_Ei amor, porque demorou tanto a voltar?
-Oi querido, boa noite - disse-lhe em tom cansado, passando sua mão pela barba serrada do marido beijando-o levemente na boca.

-Você está bem?
-Sim, só demorei porque fui as compras. Baixando os olhos e comprimindo os lábios continuou... -Tá querido, eu sei que havíamos combinado de sairmos juntos para isso, mas sou inquieta e meus impulsos manipulam minhas vontades voluntárias.
Marcos a ajudou com os pacotes. Seu Carmo a estas alturas já estava se juntando a eles para ajudar. Alice dormia -felizmente!
No silêncio da madrugada, o celular de rose avisa que uma mensagem havia chegado. Ela estava na cozinha preparando o chá que certamente dividiria com a insônia. Ouvindo o som, correu pegando o aparelho, quando leu a mensagem de texto:



Boa noite durma bem e se puder sonhe comigo...









Continua...
by Lu C.





Cenas III e IV

A semana transcorreu dentro da normalidade de qualquer família que trabalha e cumpre com seus deveres esperando que seus direitos lhes sejam conferidos.
Finalmente no sábado iriam ao orfanato buscar uma companhia para Alice nas celebrações natalinas com direito a passar também o reveillon com a família.






Eram três da manhã quando Rose acordou ofegante com o mesmo sonho que já a atormentava fazia algum tempo. Então pé ante pé desceu as escadas e foi preparar um chá.
Sentada e com um dos cotovelos sobre a mesa, ela apoiava a cabeça ao mesmo tempo em que olhava para o relógio, e seus olhos pesados traziam à tona flashes do sonho. Nessas imagens ela corria por um campo de trigo atrás de uma menina que teria mais ou menos uns 2 anos. A pequena corria feliz segurando uma palma branca na mão e de vez em quando olhava para trás dizendo :

_Vem depressa, senão você não conseguirá me alcançar.

Rose piscava e fechava os olhos a fim de lembrar-se do rosto da garotinha, mas era inútil. Parecia que ela não tinha rosto, assim era sua impressão.




Quanto mais ela corria mais a menina se afastava,até o trigal ficar nevoento e nele fazer desaparecer a figura meiga que ela tanto perseguia. E sempre acordava nesse momento. Isso a estava consumindo, e tanto, que ela precisava dividir com alguém.

Parecia que o chá estava fazendo algum efeito, ou seria o cansaço que estava a lhe vencer?

Rose levantou-se e foi pra sala, onde a luz de um abajur lilás configurava um céu astral no ambiente. Sentou no sofá e lá encontrou a manta do pai cobrindo-se... Enquanto o sono lhe abraçava.

O sol naquele dia permitiu-se nascer às 05h:45min e seu Carmo já estava de pé. Abriu as cortinas, arejou o quarto aproveitando para admirar o jardim, a rua ainda adormecida, as árvores parindo seus pássaros e logo pensou que naquele sábado iria enfeitar a árvore com Alice. Subiria ao sótão para fuçar nas caixas, pegar as bolas coloridas e os enfeites novos que Marcos comprara. Estava mais do que na hora de arrumar o pinheiro, aliás, atrasados demais para o gosto dele. Mas antes sentou-se na cama, em frente à janela, lembrando-se de como Rose gostava de pendurar os enfeites e as frágeis bolas feitas de vidro pintadas à mão. Naquela época sua garotinha tinha seus 5 anos de idade acreditava piamente na existência do bom velhinho fazendo seus pedidos por cartinhas que eram “supostamente” enviadas ao Polo Norte, e de quanto eles se divertiam escrevendo-as.

Rose era irreverente, curiosa e muito inteligente e como toda criança cheia de perguntas, muitas das vezes tão pitorescas que era quase impossível de responder.

Lembrou-se também da primeira vez em que ele e sua esposa trouxeram a primeira órfã para passar o natal com eles. Era uma garotinha graciosa, sardenta e de cabelos ruivos e escorridos. Tinha um sorriso inexplicável no rosto e distribuía abraços e afagos a todos que encontrava, mesmo que nunca os tivesse visto. Naquela manhã chegaram com Emma em casa e lhe apresentaram Rose que na mesma hora fez uma careta de desapontamento e ciúme.

Emma a abraçou dizendo que seriam amigas e que o Papai Noel viria porque elas tinham sido boas meninas durante o ano e mereciam ganhar recompensas. Rose mostrava a língua e virava as costas para a pobre que chorava em segredo. E foram-se lá três ou quatro anos de busca para o encontro entre as meninas e Rose. Pena que em todas as vezes ela emburrava .

Perdido em suas lembranças seu Carmo nem percebeu as horas e quando deu por si eram 07h:15min e seu estomago roncava feito locomotiva enferrujada.

Colocou seu robe saindo no corredor sabendo que a família dormia tranquila (ainda). Desceu as escadas com o intuito de ir preparando o desjejum quando viu a filha dormindo no sofá. De pronto estancou seus passos na escada. Coçou o queixo desenhando no ar uma expressão aturdida e perdida nas horas em que ficara sentado em sua cama vagueando enquanto sua filha dormira no sofá... Estranha sensação aquela - o que teria acontecido?

Aproximou-se do sofá, ficou a admirá-la e ali sentiu o quanto a amava. Sim, amava mais que a própria vida e percebeu em seu rosto sereno o quanto era linda. Seus cabelos, de um louro acinzentado caíam em cachos pela almofada, e ainda conservava a forma antiga de dormir - com os braços enlaçados em si mesmos e uma parte do rosto aconchegada no seio da almofada. A boca delicada e rosada lembrava a mãe...

Seu Carmo ficou ali por alguns segundos, talvez o bastante para que o filme de sua vida lhe contasse que estava no fim dela e que poderia partir a qualquer momento. No entanto iria feliz pela missão cumprida e por saber que tinha entregado sua filhota a um homem íntegro e de caráter irrevogável.

Sua costumeira pigarra matinal lhe denunciou, acordando Rose, que abriu os olhos sem atinar onde estava. Mas logo seus reflexos lhes fizeram levantar, esfregando os olhos e bocejando, vendo a figura de seu velho bem ali, plantado na beira do sofá.
-Hã... Oi pai... Espreguiçando-se
-Filha, você passou a noite aqui?
... É... Que... Ai papai foi sim. Estava sem sono, vim tomar um chá e acabei me encostando aqui e... Ah, foi isso, nada demais, nem se preocupe.

Num sobressalto exclamou alto:
_NOSSA, QUE HORAS SÃO? Ficamos de ir ao orfanato... Ai que cabeça a minha...
Seu Carmo riu-se ajudando-a a levantar.
-Pois é filhota... Mas fique calma, ainda é cedo e eu já telefonei ontem para o orfanato avisando de nossa ida.
-Ahh, menos mal. Bem, já que acordei de um sonho bom, vou continuar nele e tomar café com o velhinho mais adorável do mundo.



CENA IV

O Orfanato ficava em local afastado da cidade e sua arquitetura imponente e lindamente antiga fazia parecer uma estampa vintage.

Na última curva da Estrada dos Pêssegos, Seu Carmo sorria e em seu contentamento dizia:



_Ah, olhe filhota, o prédio foi conservado, só mudaram a cor. Está muito mais alegre do que há 30 anos, você lembra como era?

-Não muito pai. Lembro-me da fachada acinzentada e dos lampiões plantados logo na entrada, do jardim... Mais ou menos. Acho que tinha um roseiral enorme, com alamedas de cerâmica, sabe aquelas de caquinhos mesclados -correto?

-Isso mesmo, balançando positivamente a cabeça e esticando um sorriso franco.

Chegando ao portão principal perceberam que havia no local uma guarita com seguranças e precisavam se identificar para terem acesso. Feito isto, o vasto portão rosado abriu-se duplamente para os lados e seus arabescos encantaram Rose que ficou admirando e tanto, que precisou olhar para trás vendo-o fechar-se lentamente.


Entraram por um caminho ladeado por jardineiras múltiplas com uma variedade quase infinita de flores. Rose ia observando encantada o lado direito da paisagem que exibia um pequeno bosque com ciprestes, numa grande variedade e algumas coníferas já exibiam seus frutos e nos espaços entre elas haviam alguns arbustos floridos com lavandas e mini -rosas.



Já do outro lado havia um gramado onde a clorofila era sua rainha , permitindo às borboletas brincarem com abelhas e beija-flores sobre um canteiro de margaridas e sempre-vivas. Ao longe deste mesmo lado, havia um conjunto de casinhas que lembravam um acampamento de férias.

O caminho até a entrada era um tanto longo e pai e filha iam felizes e encantados até estacionarem o veículo nas vagas em frente a uma escadaria larga com piso de granito mesclado entre o branco e o bege.

Ao descerem do carro avistaram no alto da escada uma mulher de aparência jovem, metida em um terninho azul marinho com risca de giz e uma camisa de seda branca com detalhe num delicado laçarote no pecoço. Trazia nos cabelos ruivos uma tiara da mesma cor do terninho.

Seu Carmo, apesar da idade, subia as escadas como se fosse um menino indo em busca de doces. Rose o segurava pedindo calma, e com certeza sua costumeira ansiedade já aflorava e sua pressão arterial fervilhava.

Bufando e com o rosto afogueado seu Carmo cumprimentou a moça:

_Bom dia, moça - qual sua graça?

_Bom dia, senhor - meu nome é Suzel - e dizendo isso estendia a mão para Rose fechando as apresentações.

-Estava a espera de vocês. Falei com o senhor ontem, pois não?

-Sim, sim. Viemos buscar uma garota.

Os olhos de seu Carmo brilhavam e Rose pode ver estrelas neles.

O vozerio das crianças enchia o corredor e Rose viu-se menina dando a mão para sua mãe. Rapidamente olhou o piso e entrementes pensou: “o mesmo piso...”Olhou em volta recordando as paredes, as tapeçarias o corrimão, tudo igualzinho e muito bem conservado.

Suzel levou-os até seu escritório onde poderiam conversar com mais calma. Porém seu Carmo não conteve a curiosidade e perguntou:

-Com licença moça, você por acaso é parente da Sra. Dis’téfano?

-Com um sorriso encantador e cheio de saudade a garota respondeu:

_Sim, ela era minha avó.

_Era?

-Infelizmente. Ela faleceu há um ano, senhor.

As estrelas nos olhos de seu Carmo emudeceram de brilhar. Quebrando o gelo Rose perguntou pela menina que iriam levar, demonstrando desejo de conhecer as dependências do orfanato.

A caminho do refeitório passavam pela varanda gigantesca protegida por muros vazados permitindo ver (ainda) uma fatia do jardim.

Rose caminhava lenta e ao mesmo tempo olhava para o bosque de ciprestes quando parou soltando um “OOOH” acústico assustando seu Carmo e freando Suzel num sobressalto.

-Olhem, olhem... Rápido! Quem é a menina que corre entre o arvoredo?

Suzel mirou seus olhinhos frenéticos e nada viu.- Você viu, pai... Uma garotinha correndo com vestidinho amarelo e cachos voando ao vento.

Seu Carmo segurou forte no braço da filha puxando-a pra perto dele. - Rose! Rose! Que menina??? Não há ninguém ali.

-É bem verdade, senhor - exclamou Suzel- nossas crianças não ficam soltas no bosque sem companhia.

Rose sentiu uma tontura e teve que ser amparada por eles. Fizeram-na sentar em um banco ali mesmo na varanda... Enquanto ela insistia ter visto a menina passou a mão pela franja e seu rosto estava transformado numa expressão de pavor e amor.

Como poderia tal mistura dentro de um coração?



(...) continua




Cena V e Epílogo
Depois de refazer suas energias Rose dividia um café com o pai ali no refeitório. No rosto ainda trazia resquícios da visão que tivera no jardim.



Pai e filha continuavam em silêncio respeitando as fronteiras do coração até que Suzel adentrou ao salão acompanhada por uma meninota de passos delicados e face cabisbaixa, aproximando-se rapidamente.

Sem conter a ansiedade seu Carmo foi o primeiro a olhar e logo abriu um sorriso largo. Em seguida, girando sobre o calcanhar, Rose deparou-se com a garotinha.

_Muito bem senhores, esta é Angélica, nossa pequena artista.




Rose levantou o rosto lentamente e os olhos cor de mel de Angélica encontraram os seus. Num breve e doce sorriso Rose estendeu sua mão em direção a ela que prontamente entregou a sua. As peles se tocaram e Rose sentiu um iceberg no estômago.

_Oi Angélica, como vai você?

_To bem, é a senhora que vai me levar daqui?

Seu Carmo estava com os olhos marejados e um leve tremor de mãos e, pelo que sabemos dele, a emoção já o tinha tomado por completo.

-Eu acho que sim, não é mesmo Suzel?

_Perfeito Sra. Rose!

_Quantos anos tem Angélica?

-Tenho quatro, mostrando a idade com os dedinhos ...

Tudo foi muito rápido nesse encontro e enquanto seu Carmo saía com Angélica pela mão, Rose acertava os últimos detalhes com Suzel :

... - Sim, está tudo certo e o retorno da menina fica para o dia primeiro de janeiro. Aqui nesta maleta estão as roupas e pertences dela.

Feliz Natal e um ano novo cheio de paz, e que a senhora continue conservando esta generosidade que demonstrou.

Obrigada Suzel por sua atenção, nos vemos no ano novo. Feliz Natal!


Rose saiu rapidamente indo para seu carro e enquanto seguia percebeu que seu pai e Angélica já pareciam íntimos, justamente pelas risadas trocadas e os gestos que sugestionavam alguma brincadeira.
Angélica era uma menina alegre, mas tinha alguns momentos de melancolia que logo foi notado ali mesmo no caminho para casa.
Seu Carmo ia atrás com ela e logo percebeu sua mudez, então puxou conversa:
_Angélica, a tia Suzel disse que você é uma artista, é verdade?

A menina levantou os olhinhos , agora tímidos, respondendo um sim mudo.

-E o que você faz para ser uma artista?
-Eu gosto de pintar e fazer colagens. Gosto de consertar coisinhas quebradas. A tia sempre deixa nosso material na mesinha e a gente vai pegando o que quer. Eu gosto da cola e das tintas brilhantes.
-É mesmo. E onde faz isso?
- Nas aulas de ocupacional... Ai... Esqueci o nome Sorrindo encabulada.

-Seria Terapia Ocupacional - disse prontamente Rose.

-É tia, isso mesmo! E eu sei cantar também e adoro ouvir historinhas.
Via-se que Angélica tinha deixado a melancolia de lado e sua felicidade pintou de paz sua face. E ela desandou a falar.
-Tia, você está me levando pra sua casa?
-Sim, meu bem. Você vai passar o natal com a gente.
-E vou ganhar presente e morar lá com vocês né?
Dentro da cabeça ingênua daquela criança ela fantasiava e a vida dela seria de agora em diante esta família. Embora soubesse por Suzel que iria passar somente o Natal e a festa de reveillon.
As crianças têm normalmente essa capacidade de sonhar inocências e acreditar nelas. Construindo assim seu mundo particular com surpresas e momentos felizes.
Rose foi contundente nessa hora, apesar de seu coração contrariá-la.
_Não Angélica! Você não pode morar conosco, porque sua casa é lá no orfanato com aquele montão de amiguinhos que você tem. A tia Suzel não te falou sobre isso?
-Falou sim, mas é que eu - a melancolia voltava, e seu corpo começou a falar enquanto ela ia aninhando sua cabeça no peito de seu Carmo.
Ele, percebendo a situação a abraçou dizendo:

- Ei pequena artista, que tal um pirulito? - Em seguida tirou do bolso um daqueles pirulitos grandes e coloridos que grudam nos dentes pintando aquarelas nas roupas proporcionando arruaça de doces alegrias.



-Oba, que bonito esse pirulito. É todinho pra mim?

-Sim querida, todo seu.
Já tinha passado do meio dia quando chegaram em casa. O aroma da torta de batata recheada com carne moída invadia a garagem, misturando-se com o pudim de caramelo que estava saindo do forno.
Alice ouviu o ronco da caminhoneta do avô e saiu em disparada para encontrá-los na escadaria que dava acesso à entrada de serviço. Estava tão esbaforida que nem ouvia o chamado do pai.



Quando ela chegou ao topo da escada viu a mãe carregando duas malas e uma boneca de pano chacoalhando os cabelos de lã vermelha. Logo atrás viu seu avô de mãos dadas com Angélica. O sorriso estampado encolheu e ela proferiu:

Ah, você trouxe a menina que mora sozinha pra morar aqui?
_Quieta Alice! Já te explicamos, e vê se muda essa cara, essa é Angélica. Ela vai passar o natal com a gente e vocês serão boas amigas, ok?
Angélica olhou diretamente nos olhos de Alice e tomando coragem disse:
-Oi, você viu meu pirulito? Foi o vovô que me deu.
-O seu avô veio também - cadê ele?
Todos riram desse pequeno diálogo - porém as meninas ainda estavam travando uma batalha velada.

_ Não sua boba, esse vovô aqui - pegando na mão do seu Carmo.

Alice fez careta e completou:

Bobinha é você, e esse avô é MEU!

CHEGA! Interpelou Marcos. Vamos pra sala de visitas terminar de enfeitar a árvore de natal o que acham?

Rose e seu Carmo respiraram fundo meio aliviados porque no ar alguns mísseis ainda saracoteavam.


Epílogo

As meninas ficaram tão amigas que uma não desgrudava da outra e dividam tudo como almas gêmeas.

A noite de natal havia chegado e a casa estava toda iluminada e o pinheiro de Rose fazia as honras.



A mesa central vestia roupa de festa e as iguarias de Tiana anunciavam que a ceia seria inesquecível.

Rose e Marcos estavam terminando de se arrumar quando o celular dela toca. Marcos atende. Mudo do outro lado. Ele desliga.

Toca novamente. Rose atende.

-Alô, alô... - FELIZ NATAL - a voz pronunciava.

-Quem é?
-Sei que você sabe, mas não quer mais se lembrar. Mas saiba que vou te amar eternamente... Ligação encerrada.
Rose caiu sem forças na poltrona.
-O que houve amor?
-... Ai... Marcos me traga um copo com água, por favor.
Depois que Marcos saiu, Rose caiu num sono profundo e sem propósito e então deu-se o seguinte enredo em sonho:

"O ambiente era claro, porém nebuloso. Havia vozes misturadas e Rose viu-se deitada em uma maca. Sentia náuseas e chorava... Alguém segurava sua mão enquanto um dos vultos ao seu redor dizia:

-FIZEMOS TODO O POSSÍVEL... ISSO É UMA FATALIDADE! VAMOS SEDAR A MÃE, RÁPIDO!

Quando se recuperou lhe contaram que a criança havia nascido morta e sufocada pelo cordão umbilical. A tão esperada e desejada Ana Teresa voltava para o jardim das crianças/anjos.

Após seu completo restabelecimento físico e psicológico ela ficou sabendo que nunca mais poderia ter filhos porque seu útero não contraiu após o parto e precisaram retirá-lo."

Nesse momento ela abriu os olhos e como num relâmpago tudo veio à tona novamente... E ela chorou todas as lágrimas que uma mulher armazena durante a vida.
Esse transe durou segundos e parecia uma vida inteira. Marcos já estava a seu lado com o copo d’água.
-Querida o que houve agora?
Foi ela Marcos... Foi ela, tenho certeza... Nossa Ana Tereza!
Ela veio até mim e agora acho que encontrei a paz de que precisava.
Marcos a abraçou sem proferir palavra alguma e ali dividiram a dor.
Quando desceram, Rose viu Alice e Angélica abraçadas perto do pinheiro que parecia brilhar mais naquela noite, e sentiu um amor incondicional pela órfã como se fosse sua cria.

Ali estava seu presente de natal - sob a árvore- junto de Alice.

No dia primeiro de ano ao entardecer Angélica já era parte integrante da família.

FIM

*Tudo pode acontecer quando nosso coração se torna dilatado pelo AMOR!

By Lu Cavichioli

Outono de 2013

São Paulo







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