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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Uma inspiração inusitada

Sabor Imortal





França – século XVIII

Mounsier Michel Le Roux pertencia à burguesia francesa, membro de uma classe social que lhe dava o poder de cidadania, conferindo-lhe certos privilégios sociais, políticos e econômicos.

Nascido em “Champagne” – uma cidade ao norte da França e que ficava a 145km a nordeste de Paris fez dele um produtor de vinhos, e havia nele uma particularidade exagerada em criar sabores especialíssimos para os nobres, e já estabelecido na vida com 35 anos de idade (ainda), queria formar uma família.
Em uma dessas noitadas com amigos, em um Boulevar au vin, ele
Conheceu Henriette Poison, de uma beleza extrema, a moça era cortejada em todo tempo.

Le Roux ficou tão encantado que começou a persegui-la por meses, tornando-se o guardião – como ela mesmo o chamava. Esse relacionamento ficara tão sério que em 1718 casaram-se em uma capela, an petit comitê em recepção fechada.

 A tal dama com quem ele casara era na verdade uma cortesã, já com 25 anos. Ficara órfã aos 10  e fora criada por uma pobre mulher que vivia de esmolas nas escadarias de Notre Dame, até que com 17 anos caiu na vida noturna de Paris.

Le Roux era tão encantado por ela que a amava mais que a si mesmo.
 Em uma dessas noites insones, ele sentou-se na cama e ficou admirando a beleza de sua esposa, que quando dormia possuía feições de anjo. E foi justamente nesse momento que lhe veio à mente uma ideia que, sem nunca poder imaginar, lhe traria mais poder e mais riqueza.

O que estaria pensando o jovem Le Roux?
E por que sua esposa seria o alvo dessa ideia?

França – século XX

Isabelle de La Croix era proprietária de uma das pâtisseries mais charmosas de Montmartre – a La Petit Mitrons – uma doceria cor de rosa especializada em tortas doces, tendo como destaque a fruits-rouge.

Ela almejava também possuir uma Cave au Vin, e isso vinha lhe custando horas de trabalho a fio.

Em poucas semanas conseguiu um empréstimo e transformou uma velha Boulangeries em sua loja de vinhos, na charmosa Rue Montorguieil, onde o antigo proprietário lhe disse que ela fez um ótimo negócio, pois aquele prédio fora inaugurado pelo pâtisserie real em 1730, e que todo e qualquer turista que viesse a Paris, faria parada obrigatória, agora que tinha se tornado uma cave au vin. Se bem que com sua experiência com doces, poderia usar a parte da frente como uma pequena confeitaria. Quem sabe ela ampliaria seu negócio?

O interior da loja era em estilo “Belle Époque”, evocando a elegância das décadas passadas, visitadas por figuras ilustres, como nada mais nada menos que Coco Chanel e Audrey Hepburn.

Isabelle não entendia muito de vinhos, seus sabores e cores, e muito menos quais os tipos de pratos que poderiam acompanhar com uma boa taça de suas especialidades. No entanto, a moça tinha sorte mesmo, porque havia um amigo de faculdade que se tornou enólogo e que certamente seria seu sócio algum dia.

Em uma noite, os dois resolveram ficar após o expediente para fazerem uma listagem sobre o que deveriam vender e também abrir um dia por semana para degustação. Depois que fizeram um esboço de tudo, Isabelle pede a Gerard que coloque o lixo para fora. Mas antes, o rapaz foi até a porta dos fundos da loja para um cigarrinho e um minuto de descanso, e foi ali que ele fez uma descoberta valiosa.

Ao sentar-se em um caixote, relaxou fazendo pressão com as costas sobre uma antiga parede de tábuas. E logo que encostou desabou com caixote e tudo. Assustado gritou... rapidamente pegou seu celular e acendeu a lanterna, girando-o por todo o lugar.

O rapaz ficou estático e boquiaberto, abrindo e fechando os olhos, não acreditando naquilo que via. Gerard deparou-se com uma antiga adega, quase intacta e, que parecia ter sido construída há séculos. No entanto as prateleiras ainda estavam em seu devido lugar, cobertas por uma grossa camada de poeira e algumas teias de aranha... Para seu espanto, iluminou a prateleira mais próxima e viu que estava toda preenchida por garrafas deitadas em seu sono sepulcral.

Gerard continuou estático, coçando a barba cerrada e com os olhos ainda esbugalhados, resolveu puxar uma das garrafas. Delicadamente ela veio ao seu encontro e ele soprou para ver o rótulo, que infelizmente estava ilegível. Meneou a cabeça balbuciando algo como:
- Seria bom demais... Quase acreditei que realizaria meu sonho. Aliás...  acho que estou em um sonho.

De repente, ouve Isabelle chamar:
-Ei Gerard, onde você está? Resolveu ir embora e me deixar sozinha a estas horas?? Onde está seu maluco? – Belle gritou.
Um som abafado chegou até a moça e ela não compreendia porquê.
E novamente ele gritou:
-BELLE, venha até o fundo da loja, depressa.

Quando Isabelle chegou ao local, levou as mãos à boca arregalando os olhos de pavor.
-Gerard, cadê você?
- Estou aqui embaixo... venha que eu te seguro e ajudo a descer.
-Que lugar é esse? – Exclamou Belle muito assustada.
-Sei lá... encostei nas tábuas lá de cima e tudo desabou. Veja Belle, olhe bem de perto... Isso era uma adega, provavelmente do século XVII se não me engano. 

Estudo vinhos há anos e vi muitas desse tipo na internet.
_Mas, mas... por que não me informaram a respeito disso?
-Talvez não soubessem... E olha, se alguém desconfiasse, nunca teria vendido o prédio. Isso é uma mina de ouro, garota.

_Mina de ouro, essas velharias empoeiradas e fedidas?
- Ora Belle não seja ignorante, vamos sondar tudo amanhã bem cedo, e se eu estiver certo, ficaremos ricos minha amiga.

-Do que está falando seu maluco?
-Amanhã!

Isabelle não conseguiu dormir direito e logo cedo já estava na loja, embora ainda estivesse fechada para o público. Gerard chegou em seguida.
-Muito bem Gerard, pode começar a me explicar seus enigmas... Sabe que não gosto de decifrá-los.

-Sorrindo, o moço foi até a cozinha e enquanto preparava um cappuccino, contou uma história de amor para sua amiga.
-Sente-se Belle, aproveite seu cafezinho au chocololat  e ouça sobre uma pesquisa que fiz quando ainda estudava sobre vinhos e suas peculiaridades.

Certa vez li num artigo que um fidalgo da época tinha criado um vinho especialíssimo que conquistou toda Paris. Ele tinha criado um espumante, sendo que naquele tempo isso ainda não existia, mas como entendia de processos de fermentação, arriscou.

-E deu certo?
- Se deu certo? Ele ficou famoso por essa descoberta.
_ Mas não estou vendo nada de história de amor nisso.
Gerard sorriu – calma!!

Na verdade, ele criou o vinho em homenagem à sua esposa e o apresentou à sociedade local na festa de aniversário de seu primeiro ano de casamento. Fez tanto sucesso que a produção não vencia as vendas, e nem os pedidos comerciais.

Dando um gole generoso em seu cappuccino Belle exclamou ironicamente:
-Ah muito romântico né meu amigo...

_ Calma garota, tem mais!

Não enrola Gerard, quero descer na adega e ver o que vou fazer com toda aquela versão de vinhos/vinagres.

-AHAHAHAHAHAHAH – estou vendo que não entende nada de vinhos. As safras antigas são as melhores, meu bem.

Ahh chega disso, vou descer, você me acompanha?
_ Lógico! Mas você não quer saber o resto da história?

_ Não... outra hora, precisamos abrir a loja e ainda tenho que abastecer minha cozinha lá na doceria.
E lá se foram para a adega.
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Epílogo
Naquela manhã os dois amigos limparam  quase toda adega, e classificaram os vinhos por suas especialidades.
Gerard estava frustrado, mas ainda acreditava em suas convicções e  estudos. Ele não iria desistir.

Em um mês tudo estava em seu devido lugar. A loja de vinhos tinha uma ótima clientela, e em dias de degustação havia fila na rua e Belle ainda colocou mais lenha na fogueira, acrescentando alguns queijos que acompanhavam na degustação.

Tanta era a procura que aos domingos eles resolveram abrir a loja esticando até o sol se pôr, e nesse dia, somente Gerard foi trabalhar.
Quando fechou, ele não foi embora, desceu na adega e ali ficou, sentado, pensando... pensando e desejando que seu sonho se realizasse.

Aproveitou então para arrumar (ainda) umas caixas que não tiveram tempo de olhar, e que estavam em uma prateleira lateral, diferenciada das outras.
Entrementes Gerard dizia:

_ Bem, já que estou só, hoje vou dar cabo dessa prateleira, limpar, jogar esses caixotes podres no lixo e verificar esses vinhos que me parecem bem ruins, haja vista pelas garrafas tão envelhecidas. Se bem que tem somente duas aqui... bem estranho. Por que estariam escondidas nesse caixote? Ah, não importa acho que essas vão para o lixo. Belle vai gostar disso – sorriu com deboche puxando uma das garrafas.

Soprou, passou a mão no rótulo e novamente teve aquela sensação estática, porém multiplicada por mil.
Suas pernas falharam e ele quase caiu ali mesmo, e num misto de terror e alegria, gritou:
_ SOU O HOMEM MAIS SORTUDO DO MUNDO!!

Gerard deparou-se com um vinho que tinha por nome – BRÜT LE ROUX – 1880 – ESPUMANTE ROSÈ – e mesmo que estivesse quase ilegível ele decifrou o tesouro que tanto procurava há anos e que pensava que não existisse mais, e que somente em suas pesquisas pudesse ver o rótulo de que tanto o deixou perplexo, sem contar no sabor que provavelmente o deixaria em êxtase.

Rótulo e conteúdo – Joia rara em tempos modernos.

Simplesmente porque nesse rótulo estava impressa a foto de Madame Le Roux ...
Henriette Poisson Le Roux, - a cortesã que transformou a vida de um dos maiores produtores de vinho da época e que tornou seu sabor tão imortal quanto sua beleza.


·        ** Nota da autora:

·         Esse conto foi inspirado em uma garrafa que eu fiz, mais especificamente pela imagem em decoupagem.

·         Os trechos em negrito foram extraídos do livro “ Minha Doce Paris”, com o único objetivo de ilustrar meu texto – evidenciando estabelecimentos e seus nomes totalmente verídicos.

·         Os personagens são todos fictícios.

Lu Cavichioli
Janeiro/2018

domingo, 2 de julho de 2017

Uma imagem - 140 caracteres

Desafio de imagem proposto pelas amigas

Silvana
Mari




Pregando Peças

É inútil a queda
o próximo pode ser você

O Rosto do Medo (mini conto)




Francy's e Louize  resolveram viajar. Escritores precisam de silêncio.
Alugaram uma cabana com penumbra e ruídos noturnos.
Francy's sonhava com abismos.
Louize dormia na varanda com seu copo de vinho.
Certa madrugada acordaram num porão. Vultos as rodeavam e lhes diziam:
- Sejam bem vindas, agora vocês fazem parte de nossos rostos.
As moças olharam uma das paredes e viram a estampa esquálida de seus rostos em molduras antigas.
Olhos de sépia, sorriso perdido, boca em cadeados.
Papéis esquecidos no rodapé...


By Lu Cavichioli

Floripa -  junho/2017

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

DICAS SIMPLES PARA ESCREVER UM CONTO!

Oi Pessoal, esse é meu canal no youtube, junto com minha parceira Patty.  Dá uma curtida pra gente e  aproveita pra se inscrever. Obrigada!!!